
Tem semanas em que a vida resolve fazer um treino intervalado sem avisar. Um minuto você está correndo feliz da vida em terreno plano, no outro está subindo uma ladeira que você não sabia que existia no percurso. Aliás, exatamente como aconteceu comigo na corrida das estações de ontem.
É por essas e outras que continuo escrevendo. Este blog já deixou de ser apenas um espaço de textos há muito tempo. Virou meu diário oficial, meu divã digital e, em alguns momentos, meu setor de descarte de emoções. Tem gente que lê e vê uma crônica. Eu escrevo e vejo uma sessão de terapia que saiu bem mais barata.
E já que toda boa conversa sobre mudanças pede uma revelação, aqui vai a minha: para quem não viu no Instagram, estou treinando com uma nova equipe de corrida. A notícia pode não ter abalado a bolsa de valores, mas movimentou bastante o meu universo de corredora.
Na verdade, nem gosto de chamar de troca. Minha antiga assessoria mudou a proposta e eu acabei ficando naquela situação clássica de quem continua treinando, mas sem um objetivo muito definido. Eu corria, claro. Tinha a orientação valiosa do professor Renan, da Companhia Athletica. E não, não é o Luiz Renan, meu antigo e agora atual treinador. Sim, eu também acho que o universo poderia ter colaborado um pouco mais na escolha dos nomes.
Por algum motivo que desconheço, minha vida esportiva resolveu ser administrada por Renans. Em alguns momentos, eu mesma me perdia na conversa. “Foi o Renan que falou.” Qual deles? Pois é. Dependendo do contexto, nem eu sabia responder. Hehehe.
Lembrando que existe uma diferença gigantesca entre simplesmente sair correndo por aí e seguir uma planilha pensada para você, com objetivo, ajustes, feedback e aquele olhar técnico de quem entende do assunto.
É quase a diferença entre assistir à Copa do Mundo no sofá, de chinelo, dando opinião sobre escalação e substituição, e realmente estar no banco de reservas comandando a Seleção.
A gente corre três quilômetros, faz uma meia dúzia de alongamentos e já começa a achar que descobriu todos os segredos do esporte. Aí chega alguém que realmente entende, olha sua passada, sua carga de treino e seus números e mostra que, talvez, a gente não soubesse tanto assim.
Depois de cinco anos usando a mesma camiseta, apareci na largada do último domingo com um uniforme novo. Confesso que me senti uma atriz substituindo a protagonista da novela na metade da temporada.
Olhei para o espelho e pensei:
— Quem é essa pessoa e o que ela fez com a corredora que eu conhecia?
Cinco anos criam laços. Não só com pessoas, mas com rotinas, hábitos, lugares e até com uma camiseta suada. Mas a vida tem dessas. Às vezes a gente precisa mudar de cor, de rota, de companhia e até de grupo.
Novos ares. Novas histórias. Novos desafios.
E o mais engraçado é que o universo adora brincar de costurar pontas soltas. Hoje estou treinando com a Márcia Watanabe, que estava lá atrás, na minha primeira corrida orientada, quando eu ainda era pupila da Aline Santana. Ou seja, depois de tantos quilômetros percorridos, fui parar justamente perto de alguém que estava no início da história.
Foi aí que concluí uma coisa: o mundo não dá voltas.
O mundo corre em círculos.
E, de vez em quando, nos coloca exatamente na mesma curva para mostrar o quanto mudamos desde a última passagem.
Mas nem tudo são medalhas, endorfina e fotos bonitas no Instagram.
Aliás, a internet é um lugar curioso. Às vezes a foto está linda, a luz ajuda, o filtro faz aquele trabalho de milhões e o sorriso está impecável. Mas do outro lado da tela existem pessoas que, influenciadas por outras histórias, acabam colocando em dúvida justamente aquilo que você construiu com atitudes ao longo da vida.
É um pouco triste, confesso. Principalmente porque quem convive de verdade sabe quem você é. Mas faz parte daquele pacote chamado vida adulta: entender que nem todo mundo vai enxergar a nossa essência, mesmo quando ela está ali, bem na frente.
E, sinceramente? Eu mal consigo administrar minha própria agenda, meus treinos, minhas planilhas, minha central de emoções que em alguns momentos parece mais a montanha-russa da Disney, minhas reuniões e a pilha de roupas esperando uma intervenção divina na lavanderia. Quem dirá ainda criar uma central de fofocas paralela e produzir conteúdo sobre a minha própria vida?
Já tenho trabalho suficiente tentando entender meus próprios capítulos. Não tenho tempo para escrever os capítulos de personagens secundários. E nem quero!
Chega uma idade, porém, em que a gente aprende uma lição preciosa: nem toda bagagem merece continuar viajando conosco.
Tem gente, história e confusão que precisam ser esclarecidas e despachadas.
Sem excesso de peso.
Sem taxa extra.
Sem possibilidade de embarque novamente.
É igual tirar o tênis depois de uma prova longa. Às vezes dói, às vezes deixa bolha e, em certos casos, a ferida parece ser mais persistente. Aí começa aquela contagem silenciosa: um dia, dois, dez, vinte e cinco, trinta… Cada manhã a gente dá uma espiadinha para ver se melhorou. E melhora. Talvez não na velocidade que gostaríamos, mas melhora. E quando cicatriza, vem aquela sensação de olhar para trás e pensar: ‘Nossa, eu sobrevivi a isso também.’
Mas como a vida não pode ser feita apenas de treinos, trabalho e pequenas crises existenciais, ontem tive uma daquelas tardes que servem para lembrar o que realmente importa.
Fui almoçar com a Lívia em uma hípica.
Passamos algumas horas falando sobre: absolutamente nada importante! Hahahaha.
E justamente por isso foi maravilhoso.
Falamos de gente, de situações, de lembranças, de histórias aleatórias e demos risada sem nenhuma obrigação de resolver os problemas do mundo.
Adultos cansados deveriam receber esse tipo de encontro por prescrição médica.
E mais uma vez, em determinado momento, lembrei da famosa teoria da minha amiga Luciana: “Como ser rica sem ter um tostão no bolso.”
Porque, apesar dos R$ 80 da feijoada e dos dolorosos R$ 27 de uma garrafa de Heinneken — consumida apenas porque nosso amigo cervejeiro da Ambev Paulo Hatem não estava presente para fiscalizar — saí dali me sentindo rica.
Rica de conversa boa.
Rica de amizade.
Rica de histórias.
Rica de saúde para continuar correndo atrás dos meus sonhos.
Rica de oportunidades para recomeçar quantas vezes forem necessárias.
Aliás, desenvolvi uma teoria complementar à da Luciana:
Vai ver que eu sou rica e ainda não atualizei o extrato. Soem os tambores: Tchan Tchan Tchan Tchan…
No fim das contas, entre novas equipes, velhos reencontros, uma Copa do Mundo imprevisível, a próxima corrida chegando e algumas decepções que ainda estão dentro do prazo de validade, sigo fazendo o que sei fazer.
Corro.
Trabalho.
Escrevo.
Dou risada.
Recalculo a rota.
E continuo em frente.
Porque, se a corrida me ensinou alguma coisa, é que a gente não controla o percurso inteiro. Mas sempre pode escolher dar o próximo passo.