
Dizem que o tempo voa. Mentira. O tempo não voa. Ele pega um jatinho particular sem nos avisar, nos deixa no saguão com cara de tacho e, quando piscamos, aquela foto analógica, amarelada e de bordas gastas já completou bodas de prata.
No último sábado, em um desses surtos de nostalgia coletiva que só acontecem quando a família inteira resolve se reunir, recriamos uma foto de décadas atrás. O clássico “antes e depois”.
Confesso que fui olhar o resultado preparada para negociar com a autoestima. Mas aconteceu uma coisa inesperada: gostei da mulher que apareceu ali.
Não porque ela estivesse mais magra, mais bonita ou mais fotogênica. Claro que a gente tenta manter tudo no lugar, corre, treina, faz musculação, faz crossfit… mas o que me chamou atenção foi outra coisa. Gostei porque ela parecia resolvida.
Pensei comigo:
“Que bom que o tempo passou. A versão atual é infinitamente melhor.”
Olhei outra vez para aquela menina da fotografia e tive vontade de abraçá-la.
“Eita, Kátia… se você soubesse a quantidade de tempestade que ainda vai chamar de garoa…”
Ela sofria por antecipação. Criava teorias. Fazia um verdadeiro TCC sobre situações que jamais aconteceriam.
Hoje continuo ansiosa, claro.
Mas agora sou uma ansiosa com experiência.
É outro departamento.
Começamos então a lembrar da juventude.
Ah… os anos dourados.
Naquela época bastava alguém dizer:
— Vamos pra Ubatuba?
Cinco minutos depois já tinha cinco pessoas espremidas dentro de um Gol Branco 95, uma mochila, um porta-malas lotado de cerveja e uma confiança inabalável de que “na volta a gente vê como paga a gasolina”.
Hoje, para marcar um simples churrasco, é praticamente necessário abrir uma consulta pública.
Tem enquete.
Tem agenda compartilhada.
Tem planilha.
Tem confirmação via Pix.
Tem gente perguntando se haverá opção sem glúten, se vai chover, se haverá estacionamento e qual é o traje recomendado.
E sempre existe um primo que responde:
— Pra mim tanto faz.
Mentira.
Sempre faz.
Mas, no meio dessa velocidade toda que chamamos de vida adulta, existe uma categoria rara de pessoas que o tempo simplesmente se recusou a levar embora.
No meu caso, elas atendem pelos nomes de Zé França e Mauro.
Os dois moram em São Caetano, mas parecem acreditar que Caçapava fica logo depois do próximo semáforo. Pegam estrada como quem vai comprar pão. Chegam sem cerimônia. Entram em casa como se tivessem esquecido um chinelo ali na semana passada.
E esqueceram mesmo.
Os dois conseguiram um feito histórico: foram oficialmente adotados pela minha família.
São aquelas visitas que não exigem protocolo.
Não existe ansiedade para decidir o cardápio.
Ninguém se preocupa em arrumar quarto.
Não há obrigação de criar programação.
Eles chegam apenas para estar.
Se der para passar na casa da minha mãe, ótimo.
Se não der, tudo bem também.
O que sustenta essa amizade nunca foi a logística.
Foi o afeto.
Talvez seja exatamente isso que defina uma amizade adulta.
Presença sem protocolo.
Cada um, naturalmente, ocupa um personagem nessa comédia chamada convivência.
O Zé França, por exemplo, não larga sua cervejinha por nada. Antes mesmo de o galo pensar em cantar, o primeiro som que ecoa na casa já é conhecido por todos:
Clac… psssshh…
Uma latinha sendo aberta.
Para minha mãe, aquele barulho virou uma espécie de trilha sonora da felicidade.
Ela ouve o “pssshh” e já sabe.
As filhas vão aparecer.
A mesa de petiscos vai render horas de conversa.
Vai ter churrasco na chácara.
Alguém contará a mesma história pela vigésima terceira vez.
E todos vão rir exatamente no mesmo lugar.
Talvez, para minha mãe, felicidade tenha som.
E talvez ela comece com uma latinha abrindo.
Já o Mauro é o contraponto perfeito.
O centrado.
O motorista da vez.
O “ajuizado”, como diriam os mais velhos.
Nem primo de sangue ele é.
Mas a biologia perde feio para o afeto.
Minha mãe o adotou de papel passado na alma.
Nós apenas assinamos como testemunhas.
Foi justamente fuçando o acervo de fotos antigas do Mauro que encontrei o maior retrato da nossa história.
Lá estava meu pai.
Por uma dessas coincidências bonitas da vida, segunda-feira foi aniversário dele.
Olhei para uma fotografia de vinte anos atrás.
Depois olhei para ele.
Cheguei a uma conclusão absolutamente científica.
O tempo passou para todo mundo.
Menos para ele.
Não mudou praticamente nada.
Nem a fisionomia.
Nem os cabelos (artimanhas, eu sei)
Nem a disposição de menino.
O “antes” e o “depois” pareciam exatamente a mesma fotografia.
Só consigo concluir que ele fez algum acordo muito suspeito com o tempo.
Porque não é possível.
O homem completou 81 anos.
Oitenta e um.
E continua o mesmo garotão, correndo atrás de um forró, fã de carteirinha do Diovane dos Teclados, fiel à Skol do fim de semana e batendo cartão na caminhada diária.
Taxista.
Nordestino legítimo.
Um entre treze irmãos.
Criou três filhas com uma leveza que coloca muito marmanjo no chinelo.
Todos o admiram.
Primeiro, pela energia invejável.
Segundo, pelo sincericídio em escala industrial.
Meu pai não fala o que as pessoas querem ouvir.
Ele fala exatamente o que pensa.
Sem embalagem.
Sem filtro.
Sem departamento de marketing.
Às vezes dói.
Na maioria das vezes diverte.
E, curiosamente, as pessoas gostam justamente por isso.
Porque depois de certa idade a sinceridade deixa de ser defeito.
Vira luxo.
Olho para ele e faço, em silêncio, a conta que todo filho faz.
Será que um dia eu chego lá?
Na energia, confesso que tenho minhas dúvidas.
Porque basta correr dez quilômetros para eu precisar negociar um tratado de paz com meu joelho durante três dias.
Enquanto isso, ele termina a caminhada querendo saber onde vai ser o forró da noite.
Talvez envelhecer bem tenha pouco a ver com o corpo.
Talvez tenha muito mais a ver com aquilo que a gente carrega por dentro.
As pessoas.
As histórias.
Os churrascos.
Os forrós.
Os amigos que atravessam cidades sem precisar de convite.
Os pais que, sem perceber, começam lentamente a virar nossos filhos.
Porque essa talvez seja a maior pegadinha do tempo.
A gente passa a infância ouvindo:
— Leva um casaco.
Anos depois devolve exatamente a mesma frase:
— Pai, levou o casaco?
E, sem perceber, troca de lugar na fila da vida.
No fim das contas, aquela foto que recriamos não mostrava apenas pessoas décadas mais velhas.
Mostrava quem permaneceu.
Mostrava quem chegou.
Mostrava quem nunca foi embora.
Mostrava que o tempo leva cabelo, leva joelho, leva a coragem de viajar em um Golzinho lotado sem pensar nas consequências.
Mas, quando é generoso, devolve tudo isso em forma de história.
Quando a casa está cheia, alguém relembra mais um sincericídio do Seu Zé e meu pai identifica a sua própria gafe antes de todo mundo, ri como um garoto de vinte anos e, ao fundo, enquanto meu pai ri de mais uma história, o Zé abre outra cerveja.
Clac… psssshh…
Pronto.
Está tudo no lugar.
Feliz aniversário, pai.
Que seus 81 anos continuem provando que juventude nunca morou na certidão de nascimento. Ela sempre morou no jeito de viver.
E que nunca nos faltem amigos que cruzem estradas sem convite, famílias que adotem por afeto e o delicioso barulho de uma latinha abrindo para nos lembrar de que a felicidade quase nunca faz estardalhaço. Ela apenas chega, senta à mesa… e fica.

