
Dizem que o ano só começa depois do Carnaval. Eu tenho outra teoria: para quem parcela as férias ao longo do ano, ele recomeça toda vez que a gente volta para casa.
E desta vez o retorno foi daqueles que deveriam dar direito, por lei, a um período de readaptação à realidade. Desembarquei no sábado, dia 13, um dia antes do previsto, ainda tentando entender em qual fuso horário meu cérebro estava funcionando, e fui recebida pelo primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo. Nem deu tempo de sentir saudade da viagem. Entre uma mala ainda fechada, algumas horas de sono para recuperar, um fechamento de pagamentos de prestadores de serviço já atrasado que precisava estar concluído até segunda-feira dia 15 e o aniversário de um grande amigo, desfazer as malas acabou entrando para a lista das tarefas que eu fingia que faria “daqui a pouco”. Em poucas horas, saí do modo turista para o modo festeira, em um churrasco cheio de amigos, futebol, risadas e a inevitável sensação de que a vida adulta não dá nem tempo para o jet lag se instalar direito.
E como anda sua expectativa para o Hexa? Confesso que a minha anda mais baixa que a bateria do celular às seis da tarde. Mas existe algo no nosso DNA que desafia qualquer lógica. A gente reclama, critica, faz meme, prevê o caos e, cinco minutos depois, está vestindo verde e amarelo e dizendo: “vai que agora dá certo?”.
No pior dos cenários, a Copa continua sendo uma excelente desculpa para reunir os amigos. E algumas derrotas ficam muito mais elegantes quando acompanhadas por uma boa taça de vinho. Ou duas. Não cabe a mim estabelecer limites. Não estou aqui para julgar ninguém. Hehehehehe
Falando em assuntos delicados, o horóscopo das leoninas deste mês recomenda brilho pessoal, pés no chão, responsabilidade financeira e foco nos boletos.
Uma mensagem bonita. Inspiradora. Quase uma obra de ficção.
O problema é que meus pés no chão resolveram passear por uma loja da Guess e dar uma passadinha em alguns outlets da vida. Quando percebi, estavam voltando carregando sacolas. O capitalismo não me abraça. Ele faz cafuné, elogia minha autoestima e ainda oferece parcelamento no cartão.
E antes que alguém venha falar em consumo consciente, gostaria de lembrar que existem investimentos financeiros e existem investimentos emocionais.
Quem tem coragem de chamar um frasco de J’adore de futilidade? Aquilo não é perfume. É equipamento de proteção individual para enfrentar gente mal-humorada.
E por falar em viagens, preciso esclarecer uma questão que aparentemente virou pauta entre alguns amigos. Depois de três viagens de peso nos últimos meses, muita gente concluiu que eu ganhei na Mega-Sena e estou escondendo o prêmio.
Às vezes eu mesma quase acredito.
Olho as fotos (sem evidências dos perrengues) e penso: “realmente, essa pessoa parece ter uma condição financeira muito superior à minha”.
Mas aí faço o teste definitivo da vida adulta: abro o aplicativo do banco.
E não. O prêmio não caiu.
Nem o da Mega-Sena, nem a herança inesperada daquele tio milionário que eu infelizmente não tenho. rsrsrs
A verdade é bem menos glamourosa e muito mais brasileira: planejamento, algumas renúncias estratégicas e uma capacidade quase sobrenatural de fazer caber no orçamento aquilo que o coração já decidiu que merece.
Minha amiga Luciana costuma dizer: “Como ser rica sem ter um tostão no bolso”. E, sinceramente, começo a suspeitar que ela descobriu algum segredo que os economistas esconderam da população. Porque quando olho para as pessoas que tenho, para as experiências que vivi, para as oportunidades que aparecem pelo meu caminho e para a saúde que ainda me permite sonhar e correr atrás das coisas, fico pensando: de repente sou rica e nem sei. O único lugar onde essa informação ainda não chegou foi ao aplicativo do banco, mas tudo bem! Faz parte! hahahaha
Por isso, depois de cada desembarque triunfal, resta apenas uma opção: voltar ao trabalho e produzir o suficiente para pagar todas as excelentes decisões financeiras tomadas pela minha versão turista.
Porque viajar é maravilhoso. O problema é que a fatura também viaja e, por alguma razão, sempre volta no mesmo voo que a gente.
No fundo, essas pequenas extravagâncias funcionam como amortecedores emocionais. Porque crescer — ou amadurecer, que parece mais chique — é entender que nem tudo acontece como planejamos.
Alguns projetos não saem do papel.
Algumas expectativas não se cumprem.
Algumas pessoas não ficam.
E, com o tempo, a gente descobre que certos “nãos” da vida eram apenas livramentos usando fantasias de frustração.
Na hora dói. Depois passa.
Talvez seja por isso que eu já esteja planejando a próxima viagem antes mesmo de terminar de desfazer a mala da última. Existe algo profundamente humano nessa insistência em seguir em frente, sonhar de novo e imaginar o próximo destino antes mesmo de terminar o atual.
No fim das contas, a vida talvez seja exatamente isso: entre uma torcida cautelosa pelo Brasil, uma planilha aberta no computador e uma nova viagem já desenhada na imaginação, a gente vai seguindo.
Que venham os jogos, os aprendizados, as surpresas e até os boletos — desde que venham em parcelas razoáveis.
E se o mundo é mesmo um palco, eu, como boa leonina que sou, só peço três coisas: uma boa iluminação, o vinho na temperatura certa e o perfume impecável.
Agora, se vocês me dão licença, preciso encerrar esta reflexão filosófica sobre a existência. Afinal, hoje é sexta-feira e tem jogo do Brasil de novo. A mala continua sem ser totalmente desfeita, os boletos seguem firmes em sua missão de me manter humilde e o planejamento da próxima viagem já está perigosamente avançado. Mas uma coisa de cada vez. Primeiro, vamos sofrer pelo futebol. Como todo brasileiro experiente sabe, algumas tradições merecem ser respeitadas.