Existe uma mentira que a maturidade conta para quase todo mundo.
Ela sussurra que, depois de algum tempo, já é possível trocar mensagens com os fantasmas do passado como dois adultos civilizados. Afinal, o tempo passou, as feridas estão quase cicatrizadas, todo mundo evoluiu… certo?
Errado.
Bastam cinco minutos de troca de mensagens para desaparecer qualquer vestígio de maturidade. O diálogo dá lugar a uma competição silenciosa: quem encontra primeiro a mágoa mais bem conservada no fundo da memória.
De um lado, alguém exibe a coleção de traições sofridas. Do outro, o álbum completo das negligências, ausências e silêncios. Cada participante chega munido de uma memória seletiva impecável. Porque existe uma regra universal dos relacionamentos: quem machuca costuma lembrar dos fatos; quem foi machucado lembra até da pontuação da mensagem.
Ninguém está ali para ouvir. Cada um só espera a vez de provar que sofreu mais.
É curioso como a gente acredita que algumas conversas vão trazer paz, quando, na verdade, elas apenas desempacotam caixas que já estavam fechadas. E lá vêm os textões. Escreve. Apaga. Reescreve. Acrescenta um “só para esclarecer”. Remove um “com todo respeito”. Respira. Digita de novo.
Até que acontece um pequeno milagre.
O cansaço. De ambas as partes.
Não aquele cansaço físico. O outro. O da alma. O momento em que a pessoa olha para a tela do celular e percebe que já não pertence mais àquela discussão. Nem àquela dinâmica. Nem, talvez, àquela versão de si mesma que ainda insistia em pedir compreensão de quem nunca aprendeu a oferecer.
É quando o botão mais importante não é o de bloquear.
É o de desconectar por dentro.
E, como todo ser humano moderno, depois de abandonar uma batalha emocional, resta procurar respostas no lugar onde elas nunca deveriam estar: o Instagram.
Bastaram alguns segundos de rolagem para o algoritmo, esse terapeuta não diplomado da internet, apresentar uma velha história: a da borboleta e do escorpião.
O escorpião admirava a leveza da borboleta. Ela, encantada com a firmeza dele, acreditou que por baixo daquela armadura existia apenas alguém mal compreendido. Como acontece em quase todo começo de romance, o ferrão entrou em período de experiência. Ficou escondido.
Vieram dias bonitos. Vieram promessas. Vieram voos.
Até que, um dia, a borboleta acordou com uma das asas perfurada.
Assustada, perguntou por quê.
O escorpião respondeu que não queria machucá-la. E talvez fosse verdade. Mas acrescentou algo ainda mais difícil de ouvir: fazia parte da sua natureza.
A borboleta foi embora.
Porque existe um tipo de amor que acaba não por falta de sentimento, mas por excesso de ferrão.
A pergunta que ficou ecoando era simples: será que escorpião só consegue viver bem com outro escorpião?
Talvez.
Talvez existam pessoas que entendam perfeitamente a linguagem das armaduras, dos ataques preventivos, das defesas permanentes. Gente que transforma espinhos em protocolo de convivência e chama isso de normal.
O problema começa quando uma borboleta decide que conseguirá convencer um escorpião a voar.
Ela não consegue.
E o escorpião também não aprende.
Cada um apenas confirma a própria natureza.
Talvez a maturidade não seja aprender a vencer essas conversas. Talvez seja descobrir que nem toda discussão merece uma réplica, nem toda despedida precisa de discurso e nem todo fantasma merece um café.
Alguns merecem apenas silêncio.
Porque borboletas não curam asas quebradas discutindo com ferrões. Elas vão sofrer, querer entrar no casulo de onde saíram e faz parte do processo, mas elas só vão se curar encontrando jardins onde ninguém confunda delicadeza com fraqueza.
E, convenhamos, depois de certa idade, escolher bem onde pousar dá muito menos trabalho do que continuar tentando ensinar um escorpião a bater asas. Simples assim!
E antes que alguém tire conclusões apressadas, vale um esclarecimento: não, esta não é uma confissão minha disfarçada de crônica. É apenas o resultado de observações. Algumas eu vi de perto, outras ouvi contar, muitas reconheci espalhadas por aí. E, como todo cronista faz um pouco de espionagem emocional da vida alheia, resolvi transformar essas cenas em palavras.
Se alguém se enxergou na borboleta ou no escorpião a responsabilidade é inteiramente da vida, que insiste em repetir os mesmos roteiros com elencos diferentes.
Eu só passei aqui para anotar. Afinal, alguém precisa registrar essas pequenas tragédias cômicas da vida adulta antes que o algoritmo faça isso primeiro.
