
Existe uma Coca-Cola morando na minha geladeira.
Não é força de expressão. Ela realmente mora lá.
Há algum tempo ocupa o mesmo endereço, escondida atrás das garrafas de água, como certos sentimentos que aprendem a se camuflar para parecerem inofensivos. Toda vez que abro a porta da geladeira, ela me olha. Sim, porque objetos observam. Principalmente aqueles que sabem exatamente o efeito que provocam.
O diagnóstico é claro: eu a amo e a odeio. Sei, com toda a clareza científica e emocional, que ela me faz um mal danado. É o paradoxo perfeito do “fazer mal, mas ser gostoso”.
Ela é uma caçulinha. Pequena, elegante, dessas que parecem dizer: “É só um golinho.”
Nunca é.
Acho curioso como certas tentações encolhem de tamanho justamente para parecer menos perigosas. A gente sabe que aquilo fazia mal. Sabia enquanto vivia. Sabia enquanto bebia. Sabia enquanto insistia.
Mas o cérebro, esse roteirista de novela mexicana, faz questão de apagar os boletos emocionais e deixar só a lembrança da parte boa.
O mais engraçado é que eu nem tomo refrigerante.
Aliás, faz tempo.
Essa Coca-Cola nem foi comprada para mim, apesar de ter sido comprada por mim.
Hoje, a única função que exerce é me oferecer um exercício diário de autocontrole. É quase uma personal trainer emocional, só que gelada.
Tenho um combinado silencioso com aquela garrafinha.
Ela só vai sair dali quando eu abrir a geladeira, olhar para ela e não sentir absolutamente nada.
Nem desejo.
Nem curiosidade.
Nem saudade.
Só indiferença.
Se ela vencer antes, paciência. Há coisas que expiram muito mais rápido do que a nossa capacidade de desapegar.
E até acho que se continuar nesse ritmo, ela vai vencer antes.
E tudo bem.
Tem coisa que precisa vencer mesmo.
O iogurte vence em quinze dias.
O presunto, em uma semana.
É a validade de produto.
Validade de hábito.
Validade de algumas histórias.
Aliás, essa talvez seja uma das maiores injustiças da vida moderna… Certas lembranças desafiam qualquer vigilância sanitária. Elas continuam perfeitamente conservadas dentro da cabeça da gente.
Enquanto ela continua gelando, é impossível não pensar em como certas coisas parecem deliciosas durante a viagem.
Não a viagem de verdade. Aquela outra, que todo mundo já fez pelo menos uma vez: a que começa parecendo um filme europeu. Paisagens bonitas pela janela, conversas que fazem o tempo passar depressa, uma sensação confortável de que o destino compensará qualquer atraso do percurso.
Os trilhos rangem?
Sempre rangem.
Os sinais de que alguma coisa está fora do lugar aparecem?
Quase sempre.
Mas o coração é um péssimo engenheiro ferroviário. Ele chama de emoção aquilo que a razão já classificou como acidente anunciado.
E, quando menos se espera, o maquinista muda o roteiro.
Não há mais paisagem.
Não há mais destino.
Resta apenas uma escolha nada elegante: pular ou ser empurrado.
Há relacionamentos que funcionam exatamente assim. Começam como uma viagem de primeira classe e, sem que ninguém perceba, transformam-se num vagão nada exclusivo onde nunca se sabe quem vai embarcar na próxima estação ou quem já ocupou aquele assento antes. O que deveria ser descanso vira vigilância. O que deveria ser porto seguro vira sala de espera.
E isso cansa.
Porque viajar já exige um equilíbrio danado. Fiscalizar embarques e desembarques deveria, no mínimo, render adicional de insalubridade.
Talvez seja por isso que a abstinência confunda tanto. Ela não costuma sentir falta da realidade. Sente falta da versão romantizada da viagem, daquela que existiu muito mais na imaginação do que nos trilhos. A memória é uma excelente roteirista: corta as cenas desconfortáveis, melhora a fotografia, escolhe uma boa trilha sonora e, de repente, até um desastre ganha cara de aventura inesquecível.
Enquanto isso, a Coca-Cola continua lá.
Gelada.
Paciente.
Imóvel.
Esperando o dia em que eu fraqueje.
Mal sabe ela que a disputa mudou de fase.
Não é que eu tenha vencido. Ainda não.
Continuo resistindo.
Nem sempre com elegância, é verdade.
Às vezes é uma resistência heroica. Outras vezes é só preguiça de estragar o esforço dos últimos tempos.
Mas sigo.
É nesse momento que a liberdade acontece.
Não quando a tentação desaparece.
Mas quando ela continua exatamente onde sempre esteve… e, ainda assim, deixa de mandar na nossa vontade.
Provavelmente, um dia vou abrir a geladeira e perceber que a Coca-Cola venceu.
Vou rir.
Talvez até a agradeça pelo tempo de convivência silenciosa.
Depois, vou jogá-la fora sem cerimônia.
Não porque finalmente esqueci o gosto.
Mas porque descobri outros sabores.
E isso muda tudo.
Antes que algum apaixonado por refrigerante se ofenda, esclareço: esta crônica não é sobre Coca-Cola.
É só uma crônica.
A garrafinha é apenas uma personagem emprestada para falar de tudo aquilo que insiste em nos seduzir mesmo sabendo que nos faz mal. Um relacionamento, um vício, um hábito, uma saudade, uma mensagem que não deveria ser respondida, um lugar para o qual juramos que não voltaríamos. Todos nós guardamos uma “última Coca-Cola” em alguma prateleira da vida. A boa notícia é que a cura não acontece quando ela desaparece. Acontece no dia em que ela continua ali, ao alcance da mão… e já não desperta mais sede.