
Dizem que o brasileiro não estuda a Copa do Mundo, ele a vive. E que vida! Minha jornada rumo ao (pseudo) Hexa começou no mais puro suco do caos brasileiro: virei a noite viajando, desembarquei em solo firme e, sem passar pelo reabastecimento do sono, peguei a estrada direto para Taubaté. O motivo? O primeiro jogo da seleção coincidia com o aniversário do meu amigo Flávio Cunha. O cansaço? Sumiu. Aliás, convenhamos, existe lugar melhor para assistir ao Brasil do que cercado de amigos, vinho, música ao vivo, dança mesas onde todo mundo fala ao mesmo tempo?
Ali, o Brasil empatou com Marrocos e a gente descobriu que o verdadeiro combustível da Copa não é o patriotismo, é a resenha.
No segundo jogo, a Copa mudou de endereço e foi parar na casa da minha irmã. Sexta-feira gelada, família reunida, alguns agregados — porque toda família brasileira tem os agregados oficiais —, comida boa e aquele calor que não vem do cobertor, mas das pessoas. Uma vitória da Seleção contra o Haiti.
Aí vieram os testes de resistência no Bar do Coronel. O terceiro jogo aconteceu no Bar do Coronel. Fomos em cinco: Taise, Lívia, Paulo, Neto e eu. Houve chope, música boa e uma performance memorável do Paulo dançando “Pimpolho é um cara bem legal… pena que não pode ver mulher”. Não sei se foi coreografia ou um pedido de socorro da coluna dele, mas foi bonito de assistir.
Já no quarto jogo… ah, o quarto jogo. Estávamos lá novamente. A gerência do bar teve a brilhante e perigosa ideia de prometer um chope grátis para cada gol do Brasil em toda Copa. Imagina a cabeça do meu amigo Paulo Hatem, que é cervejeiro de corpo e alma? Quem o conhece sabe que aquilo não era uma promoção. Era uma convocação.
A cada bola na rede, o Paulo não gritava “Gol!”, ele entrava em transe etílico e clamava: “Chope, Chope, Chope, Chope!”.
E então, chegou o dia da eliminação.
Se era para chorar, que fizesse isso em grande estilo. Fomos assistir na casa da Cibele Lacava. Cerimonialista talentosa, ela fez o que sabe fazer de melhor: transformou a própria casa em uma festa. Parecia um arraial de São João fora de época. Eram quase quarenta corredores, muita comida, decoração impecável, música ao vivo comandada pela dupla “Lucas e Priscila” e aquela expectativa coletiva de quem já estava planejando a semifinal.
Porém, o futebol tem dessas coisas: ele expõe as faltas que a gente sente na vida real. Havia uma ausência impossível de ignorar. Nosso querido Paulo Hatem não estava lá. Ele havia perdido o pai — um homem incrível que tive a honra e o prazer de conhecer — e precisou viajar às pressas para Recife. O vazio do Paulo e da sua alegria contagiante já era um prenúncio de que o dia seria de corações apertados.
O juiz apitou o fim do jogo. O Brasil perdeu. O silêncio tomou conta da decoração junina por alguns segundos.
Infelizmente, não foi dessa vez. Mas o futebol, no fundo, é só uma grande metáfora da nossa própria existência. Um dia a gente ganha, no outro a gente perde. A vida é exatamente esse carrossel: perdemos jogos, perdemos oportunidades e, de forma muito mais dolorosa, perdemos pessoas que amamos. E faz parte. Precisamos normalizar a derrota para conseguir valorizar o caminho.
Ficamos tristes? Com certeza. O choro do torcedor é legítimo. Mas a gente limpa as lágrimas, agradece pelos momentos de união que só a Copa proporciona e segue o baile. Que venha 2030. Até lá, a gente treina o fígado, corre mais alguns quilômetros e mantém o estoque de cerveja do Paulo Hatem sempre abastecido. O Hexa é logo ali.