Geração Biotônico

Outro dia, passando pela prateleira de uma farmácia, dei de cara com um vidro de Biotônico Fontoura. Parei. Não por nostalgia. Por reflexo de sobrevivência.

Se a Anvisa entrasse na cozinha da minha mãe nos anos 90, saía de lá de camburão. Que me desculpe a indústria farmacêutica moderna com suas gominhas de colágeno sabor frutas vermelhas, mas a verdadeira alquimia medicinal raiz atendia por um nome: Biotônico Fontoura.

Quem cresceu nos anos 80 e 90 sabe que aquele vidro marrom não era um fortificante. Era uma ameaça velada.

Na casa da minha mãe, remédio nunca vinha sozinho. Ela olhava para o Biotônico e devia pensar: “Está muito fraco.” Então incrementava a receita. Entrava leite condensado. Entrava ovo de pato. Tudo batido. Uma colherada daquilo não apenas abria o apetite; aquilo realinhava os chakras, blindava a alma e, provavelmente, criava uma camada de teflon no meu estômago. O leite condensado vinha para seduzir, o ovo de pato para traumatizar, e o Biotônico para selar o pacto.

Até hoje não sei qual era o objetivo daquela mistura. Curar anemia? Abrir o apetite? Blindar o organismo? Construir caráter?

O fato é que uma colherada daquele negócio tinha potência suficiente para fazer qualquer criança repensar as próprias escolhas, mesmo sem ter idade para escolher absolutamente nada.

As mães daquela época tinham uma segurança impressionante. Não existia Google, nutricionista de Instagram nem pediatra disponível no WhatsApp. Existia uma vizinha que dizia: “Isso faz bem” e pronto. Virava protocolo oficial da família.

E nós sobrevivemos.

Corta para a vida adulta.

Hoje, a minha vida é uma correria ferrenha. É metas da empresa para bater, a casa para manter em pé, planilha de corrida para cumprir e uma chuva de boletos que chega com mais consistência do que as minhas noites de sono.

Tem dias que eu acordo e sinto que a minha disposição não está apenas baixa; ela está na UTI, respirando por aparelhos, em modo de recuperação total. Olho no espelho com aquela cara de quem foi atropelado por um caminhão de entregas e penso: onde está o Biotônico Fontoura quando eu mais preciso dele?

Não porque eu queira repetir a experiência do ovo de pato. Deus me livre.

Mas porque, na memória, ele virou um símbolo daquela infância em que a gente tomava uma colherada de qualquer mistura suspeita, corria descalço o dia inteiro, caía, ralava o joelho, levava uma ardida monumental de Merthiolate e, no dia seguinte, acordava inteira, pronta para outra.

Hoje basta um treino mais puxado ou uma inocente segunda taça de vinho para o joelho resolver me lembrar da minha certidão de nascimento. A recuperação inclui gelo, anti-inflamatório, alongamento e aquela velha negociação com o próprio corpo: “me deixa correr só mais uma prova que eu prometo me comportar.”

No fundo, talvez eu nem esteja com saudade do Biotônico.

Estou com saudade daquela energia inesgotável que a infância tinha, da confiança absoluta de que tudo passava rápido e de uma mãe que acreditava sinceramente que leite condensado, ovo de pato e um fortificante eram capazes de resolver qualquer problema.

Pensando bem… talvez resolvessem mesmo.

1 comentário Adicione o seu

  1. Avatar de Cristiano Cristiano disse:

    A energia de quando éramos crianças não nos deixou! Ela é roubada por uma infinidade de pequenas coisas que fazemos todos os dias, repetidamente.

    Por outro lado, nosso biotônico não é mais uma poção (nada mágica aliás!), ele está presente nas vitórias no trabalho, nos treinos, na convivência com pessoas que nos fazem bem, na boa comida, nos pequenos prazeres que nos surpreendem no dia-a-dia, como a leitura de um bom texto como o seu.

    Parabéns!!

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