
Existe um momento da vida em que a gente abre uma gaveta procurando um documento. Ou resolve organizar um armário porque vai reformar a casa, trocar de escritório, fazer uma faxina qualquer… E, sem querer, encontra uma versão antiga de si mesmo.
Hoje aconteceu comigo.
Participei de um evento na empresa que, sem exagero nenhum, lançou os alicerces de quase tudo o que construí profissionalmente. A Expresso Redenção foi muito mais do que meu primeiro grande emprego. Foi onde descobri que comunicação não é escrever bonito. É fazer as pessoas perceberem que pertencem a alguma história.
Comecei no RH. Depois inventei — porque na época era quase isso mesmo — um departamento de comunicação. Escrevi o jornal interno durante anos, organizei SIPATs, Dia do Motorista, festas de confraternização, produzi um vídeo institucional que rodou por anos em… VHS! Sim, crianças, existiu uma época em que a tecnologia precisava ser rebobinada.
Escrevi um livro sobre a empresa. E, no meio desse caminho, vivi um daqueles momentos que a gente só entende muito tempo depois: ganhei, ao lado da minha parceira inseparável Fernanda Matta e sob orientação do professor Marcelo Pimentel, o Expocom, em Porto Alegre, com um projeto de assessoria de imprensa empresarial. Levamos o nome da Unitau para disputar com gigantes como USP, Cásper Líbero, Unicamp e tantas outras referências da Comunicação.
Na época eu achava que estava apenas fazendo meu trabalho.
Mal sabia que estava escrevendo capítulos da minha própria história.
Quando cheguei em casa, fiz o que qualquer pessoa emocionalmente equilibrada faria: fui atrás da velha pasta preta onde guardei todos os jornais que escrevi.
Ela ainda estava lá.
Fechada.
Silenciosa.
Esperando.
Confesso que a abri preparada para enfrentar um festival de vergonha alheia. Afinal, vinte anos são suficientes para condenar roupas, cortes de cabelo, sobrancelhas e, principalmente, textos.
Encontrei tudo isso.
A sobrancelha finíssima, quase um fio de esperança. Os cabelos escuros e encaracolados. Expressões que hoje fariam qualquer equipe de comunicação pedir uma reunião urgente. Algumas pautas envelheceram mais rápido que leite fora da geladeira. Outras continuam surpreendentemente atuais.
E eu ri.
Ri porque o tempo é um crítico implacável, mas também é um editor extremamente generoso.
Naquela época não existiam redes sociais. Nossa timeline era de papel.
As notícias chegavam pelo jornal, pela televisão ou pelo mural da empresa. Curtida era alguém cruzar com você no corredor e dizer:
— Li sua matéria.
Só isso.
E bastava.
Enquanto folheava aquelas páginas, fui reencontrando funcionários que entrevistei. Pessoas que tinham sonhos, filhos pequenos, planos para o futuro.
Automaticamente pensei:
“Por onde será que eles andam?”
A resposta veio algumas horas antes.
Alguns estavam no evento de hoje.
Vinte anos depois.
Com um pouco mais de cabelos brancos.
Eu também.
Com algumas rugas que juram ser “linhas de expressão”.
Eu finjo acreditar.
Mas havia algo intacto em todos nós: aquele brilho silencioso de quem ajudou a construir um pedaço da história de um lugar.
É curioso como a gente vive sem perceber que está fabricando memória.
Eu escrevia um jornal por mês. Entregava na gráfica, comemorava a edição pronta e já começava a seguinte.
Nunca imaginei que, duas décadas depois, aquelas folhas amareladas teriam mais valor do que tiveram quando saíram fresquinhas da impressora.
O cotidiano tem essa mania bonita de se transformar em relíquia sem pedir autorização.
Olhei para aquelas páginas e encontrei a menina que as escreveu.
Por alguns segundos, achei que ela ainda fosse eu.
Mas não era.
Ela continua morando aqui dentro, claro.
Só que agora divide espaço com uma mulher que aprendeu que pessoas importam mais do que projetos. Que liderar é muito mais ouvir do que falar. Que escrever é muito menos impressionar e muito mais tocar alguém.
Hoje escrevo diferente.
Porque hoje eu enxergo diferente.
Fechei a pasta preta com um sorriso que só aparece quando a saudade e a gratidão resolvem caminhar de mãos dadas.
E saí desse mergulho no passado desejando apenas uma coisa: que, na empresa onde estou hoje, eu consiga trabalhar com o mesmo encantamento daquela menina que acreditava que um jornal interno era apenas mais uma tarefa da semana.
Porque nunca foi.
Era história sendo escrita enquanto ninguém percebia.
Talvez seja esse o maior truque do tempo.
Ele nunca nos avisa quais dias serão inesquecíveis.
A gente só descobre muitos anos depois… quando abre uma pasta preta e percebe que, sem notar, passou a vida inteira colecionando versões de si mesma.
E, naquele instante, entendi uma coisa que me emocionou profundamente:
Nós não envelhecemos quando os cabelos embranquecem, quando as fotografias amarelam ou quando os arquivos vão parar numa pasta esquecida.
Envelhecemos no dia em que deixamos de colocar brilho nos olhos daquilo que fazemos.
Enquanto existir entusiasmo, curiosidade e vontade de transformar a vida de alguém, a menina da sobrancelha fina continuará viva.
Só que infinitamente melhor escrita.