Quem escreve estas páginas

Costumo dizer que sou uma pessoa absolutamente comum. Dessas que pegam trânsito, esquecem onde deixaram a chave do carro, conversam sozinhas no supermercado e sempre encontram a resposta perfeita… umas três horas depois da discussão terminar.

Nasci em São Bernardo do Campo, mas a vida — essa excelente corretora de imóveis que nunca pede nossa opinião — resolveu me trazer para o interior de São Paulo. Hoje moro nesse curioso equilíbrio entre São José dos Campos, onde todo mundo parece estar atrasado até quando chega cedo, e Caçapava, onde ainda existe gente que dá bom dia para desconhecidos e onde o cheiro de terra molhada continua sendo um acontecimento digno de aplausos.

Minha formação também nunca gostou de ficar parada. Comecei pelo jornalismo, fui estudar Gestão de Pessoas, me aventurei pelo Marketing, pela Gestão de Projetos, fiz MBA em Marketing Digital e continuo estudando até hoje. Não por disciplina exemplar — infelizmente não posso vender esse curso — mas porque minha curiosidade tem a desagradável mania de nunca bater o ponto.

Passei anos tentando entender as pessoas. Descobri que essa talvez seja a profissão mais difícil do mundo. A segunda é tentar entender a mim mesma.

Sou feita de fases. Mudo de ideia quando encontro argumentos melhores, mudo de corte de cabelo sempre que acho que isso vai reorganizar minha vida (spoiler: nunca reorganiza) e mudo de planos numa velocidade que faria qualquer agenda pedir demissão por justa causa.

Falo bastante. Muito. Mas, curiosamente, quando o assunto sou eu, cultivo silêncios. Há dias em que preciso de uma mesa cheia de amigos, risadas altas e boa conversa. Em outros, um café, um livro e a companhia dos meus próprios pensamentos resolvem perfeitamente o expediente.

Demorei mais do que gostaria para aprender a confiar na minha intuição. Ela sempre esteve certa. O problema é que eu insistia em colocá-la em votação.

Rio com facilidade. Principalmente de mim. Descobri que o bom humor é um dos poucos remédios capazes de diminuir o tamanho dos problemas sem precisar de receita médica nem de academia.

Canto no carro como se estivesse encerrando uma turnê mundial. Invisto uma pequena fortuna em cremes para a pele na esperança de convencer o tempo a renegociar nosso contrato. Gosto de vinho, de filmes, de música, de dias frios, de tardes chuvosas e de viajar sempre que posso. Amo animais com um entusiasmo que eles costumam retribuir melhor do que muitos humanos.

Carrego duas tatuagens. Uma rosa nas costas e outra na perna esquerda com a frase Love Yourself First. Na época em que fiz, achei bonita. Hoje, além de bonita, finalmente entendi o que ela queria me ensinar.

Não tenho filhos. Ainda não sei se terei. A vida nos ensina que algumas respostas não chegam quando queremos; chegam quando estamos prontos para escutá-las. E, pela primeira vez, aprendi que nem toda pergunta precisa de pressa.

Convivo razoavelmente bem com minhas contradições. Posso passar quarenta minutos organizando uma gaveta e cinco minutos depois transformar outra em cenário de investigação da Defesa Civil. Tenho um flerte antigo com o perfeccionismo, mas também um talento invejável para a bagunça criativa.

Nunca fui apaixonada por política, embora tenha aprendido que ignorá-la é um privilégio caro demais. Prefiro gastar minhas energias tentando melhorar o pequeno pedaço de mundo que realmente consigo alcançar. Dá menos curtida nas redes sociais, mas costuma dar mais resultado na vida real.

Durante muitos anos declarei guerra às manhãs. Hoje, antes das seis, já estou de pé. Ainda desconfio que meu despertador tenha algo pessoal contra mim, mas descobri uma paz curiosa nas primeiras horas do dia. O curioso é que continuo apaixonada pelas madrugadas. Meu relógio biológico claramente desistiu de escolher um lado.

Também descobri que gosto de desafios desnecessários. Corro por prazer — frase que, para muita gente, continua parecendo um problema psicológico. Faço CrossFit, danço flamenco, gerencio pessoas numa empresa de logística e, em alguns dias, a atividade mais difícil continua sendo decidir o que vou jantar.

Sou filha da Ivaneide e do Seu José, dois nordestinos que me ensinaram muito mais pelo exemplo do que pelas palavras. Sou irmã da Keila e da Kelly. Tenho um filho de quatro patas que, numa demonstração impressionante de independência, decidiu que a casa da avó oferece benefícios melhores e continuou morando lá. Recebe a visita da mãe abanando o rabinho, provavelmente por pena.

Sou emotiva, festeira e curiosamente não gosto de comemorar aniversário. Todo ano tento fingir que a data passou despercebida, mas meus amigos parecem trabalhar para o calendário.

Tenho poucos amigos. Daqueles que ainda conto nos dedos de uma mão. Talvez precise usar alguns dedos da outra, porque a vida, generosa como só ela sabe ser, anda me presenteando com novas amizades. Não sei quais permanecerão. Mas aprendi que algumas pessoas entram para ficar e outras entram apenas para nos ensinar.

Sou leonina. Embora, em dias de indecisão, eu mesma desconfie que meu mapa astral tenha colocado um ascendente em “não sei”. Ainda assim, gosto do brilho, da intensidade e da coragem que a vida insiste em exigir de mim.

Na vida de algumas pessoas sou inesquecível. Na de outras, completamente dispensável. E tudo bem. A maturidade tem dessas elegâncias: a gente finalmente entende que não nasceu para ocupar todos os lugares, mas para ser inteira nos lugares onde escolhe permanecer.

No fim das contas, sou uma coleção de versões provisórias. Uma mulher que ainda muda de ideia, muda de rota, muda de sonho e, vez ou outra, muda até de opinião sobre quem é.

Talvez seja exatamente por isso que escrevo.

Porque algumas pessoas colecionam selos. Outras cultivam orquídeas. Eu coleciono histórias.

Algumas aconteceram comigo. Outras poderiam ter acontecido com qualquer pessoa. Mas todas, sem exceção, deixaram um pedaço de si em mim.

E, enquanto a vida continuar escrevendo capítulos que eu jamais conseguiria inventar, prometo fazer a minha parte: rir quando der, chorar quando for preciso, exagerar só um pouquinho para melhorar a narrativa e transformar tudo isso em palavras.

Afinal, a única versão definitiva de mim será a última. Até lá, sigo sendo um rascunho deliciosamente inacabado. E, sinceramente? Acho que é justamente aí que mora a graça.

7 comentários Adicione o seu

  1. Avatar de Ana Elizabete P.S. Rodolfo Ana Elizabete P.S. Rodolfo disse:

    Pois é, duas horas da madrugada, estava no facebook e fui parar no seu blog Katinha querida. Saudades…. Gostoso ler seus textos… Alegria por perceber que a menina que eu conheci com 19 (ou era 18?) anos continua em construção. Um certo orgulho de um dia ter sido chamada de “mãezona” por você em meio ao pranto da despedida. Li quase tudo neste blog. Também me lembrei da menina chorando porque havia passado no vestibular mas não tinha como começar a faculdade. De lá pra cá já são duas faculdades e uma pós. E o sorriso franco e sincero continua o mesmo.
    Precisamos nos encontrar qualquer dia. Beijos.

  2. Avatar de Raquel Silva Raquel Silva disse:

    Ai saudade de ler suas coisas amiga…

  3. Avatar de Ana Elizabete Pereira da Silva Rodolfo Ana Elizabete Pereira da Silva Rodolfo disse:

    Oi amiga. Saudades de você. Imagine entrar no meu e-mail e encontrar uma mensagem da Raquel (quem é essa, me pergunto), presto mais atenção e percebo que é amiga da Katinha.
    Nooosssa. Quanto tempo….. Não tem como não entrar no seu blog e dar uma olhadinha. Como será que está Katinha. Que bom, como sempre minha amiga está feliz, sorridente e curtindo a vida. Leio o texto sobre a praia e a Festa do Branco. Vejo as fotos.
    Os cabelos mudaram mas o sorriso contagiante e olhar sincero não mudaram nada.
    Então clico no meu nome e leio novamente o texto sobre a autora.
    Sabia que eu também tenho a mania de começar a ler livros e revistas pelo final, quer dizer, tinha. Hoje só faço às vezes. Mas me lembro que temos outras coisas em comum. Tantas coisas que fazem com que eu nunca me esqueça de você, mesmo que o tempo e a distância nos tenha separado. Aguardo notícias suas. Beijos.

    Bete

    1. Avatar de Kátia Leal katialeal disse:

      Oi minha querida amiga?
      Somente agora pude ver seu comentário no meu blog… Confesso que ando sem tempo de atualizar e até mesmo de acessar essa página, mas fiquei tão feliz com seus comentários que até fiquei com vontade de escrever um post…
      Minha vida está uma loucura e imagino que a sua também esteja, afinal, não deve ser fácil ser psicologa, mãe, esposa e uma mega super profissional como você!
      Também sinto saudades…
      O tempo passa, mas algumas pessoas ficarão para sempre em nossas memórias… Como eu, poderia me esquecer na pessoa que plantou várias sementinhas profissionais em mim? Como posso esquecer de uma chefe que ultrapassou a barreira profissional e foi muito além disso (foi minha amiga)? Como posso esquecer da pessoa, em que eu, na minha imaturidade pessoal e profissional, confidenciava coisas, aguardava respostas, conselhos…
      Como eu poderia me esquecer da pessoa em que por toda a minha carreira me espelhei?
      Impossível!!!
      Se Deus me concedesse mil anos de vivência, certamente, em todos eles jamais esqueceria você!
      Não importa distância, tempo em que estamos sem nos falar, rotina diária, outras convivências pessoais… Algumas pessoas fizeram a diferença! E na minha vida, você foi uma delas!
      Muitas saudades…

  4. Avatar de Vania Vania disse:

    São exatamente 01:20 da madruga eu sem sono ai resolvi caçar algo na internet quando lembrei de você, coloquei seu nome no google ……ai olha só o que eu achei o seu blog …..cada dia admiro mais você e aqui pude conhecer mais um pouquinho da sua história de vida …. lindas mensagens, lindas fotos…. enfim amei….. bjusss bjussss

    1. Avatar de Kátia Leal katialeal disse:

      Que fofa! Adorei ver seu comentário no meu blog… Afinal, te quero muitíssimo bem… Sim! Sou meio indecisa, esquisita, nostálgica, mas sou normal, viu? Vivo desabafando nessa tela fria de computador, e até me esqueço de que as pessoas que me conhecem, podem me encontrar (no Google por exemplo)rs. Um super beijo…

  5. Avatar de Daniela Fonseca Daniela Fonseca disse:

    Oi amiga, ainda amiga! não sei escrever como você, dom maravilhoso que Deus te deu, mas escrevo com simples palavras que sinto saudades, tenho aguardo as boas lembranças do nosso tempo. Tomamos rumos diferentes, mas sempre penso em voce, de mandando bons pensamentos. Voce merece tudo de bom , pois seu coração é enorme. Te adoro amiga. bjos

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