Entre Alicates e Verdades

O barulho do alicate tirando a cutícula ritma o som da conversa. Salão de beleza numa manhã de terça-feira tem um silêncio cirúrgico.  Ali, entre o cheiro de acetona e as escolhas de esmaltes ganhamos o direito de dissecar a própria vida sem anestesia.

Olhei para a minha manicure – Roberta, aquela profissional impecável que há alguns anos cuida de mim, e comentei sobre o último sábado. Que dia! Ela completou seus 50 anos e deu uma festa simples e linda. Poucas pessoas — os escolhidos a dedo, os de verdade — celebrando a vida com música ao vivo, comida deliciosa e uma energia que há muito tempo eu não via. Olhando para ela ali, radiante, me veio um estalo sobre nossa “régua de merecimento” nessa fase da vida… Aquela mesma régua que passamos a juventude inteira tentando calibrar para caber no mundo dos outros.

Aos 40 anos, a ficha finalmente cai: o topo dessa régua não é medido pelo que a sociedade diz que merecemos ganhar, mas pelo que nós decidimos parar de tolerar.

“Sabe o que é, Kátia?”, comentou minha manicure, sem tirar os olhos das minhas unhas, enquanto falava das próprias experiências e das histórias que ouve de tantas clientes. “Tem gente que passa a vida enganando os outros, mentindo e sustentando uma aparência que não se sustenta. É puro suco do narcisismo.”

Ela tinha toda razão. O mundo está cheio de pessoas com uma falta de caráter crônica. Gente que mente olhando nos olhos, que promete o que nunca vai cumprir e que brinca com o tempo dos outros como se ele fosse infinito. Antigamente, eu tentava entender, justificava o injustificável, buscava um fundo de bondade onde só havia egoísmo. Hoje? Hoje a minha tolerância para esse tipo de teatro é zero.

O caráter não é moldável; ou a pessoa tem, ou não tem. E, nessa fase da vida, afastar-se de quem adoece a nossa paz não é orgulho, é legítima defesa.

E nessa autodefesa se há algo que devolve a leveza que o cotidiano tenta roubar, são as viagens com as amigas. Pegar a estrada ou um avião com quem a gente tem afinidade, sem as amarras das obrigações diárias, é um santo remédio. Essas escapadas revigoram a alma de um jeito único. São dias conversando sobre tudo e sobre nada…

Viajar… Ah! Viajar! Sempre me lembra de que o mundo é vasto demais para a gente se encolher dentro dos problemas ou das mentiras mesquinhas de quem quer que seja.

A minha manicure terminou de passar a base, limpou os cantinhos com algodão e palito, e olhou o resultado. Meus pés estavam prontos, mas a minha mente estava ainda mais limpa. A régua do meu merecimento agora quem dita sou eu: só entra o que é leve, só fica o que é verdadeiro, e o resto a gente limpa da vida com a mesma precisão cirúrgica de quem elimina o excesso de uma cutícula que insistia em machucar.

Afinal, depois dessa conversa, peguei o carro e pensei que a maturidade nos ensina que o esmalte pode até descascar com o tempo, mas a nossa dignidade precisa permanecer intacta. Não há beleza que se sustente sobre uma base de falsidade, assim como não há paz que sobreviva onde o caráter é negociado.

Que eu, você, e as clientes dessa minha amiga aprendam que se o preço da nossa paz é o isolamento de quem mente, devemos pagar rindo. Porque prefiro a solidão de um salão vazio na terça-feira de manhã, do que a multidão de gente vazia tentando ditar a cor do esmalte da nossa vida.

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