
Fim de 2025. A expectativa pairava no ar como aquele último brigadeiro na bandeja da festa: vai ou não vai? A São Silvestre centenária me aguardava em São Paulo, e lá fui eu, com mais ansiedade do que preparo físico, pronta para terminar o ano correndo — literalmente. No meio do mar de gente, vi idosos fantasiados de super-heróis, gente correndo de sandália, e até um sujeito com cartaz: “Se chegar antes da ceia, já vale!” Eu, claro, me agarrei a esse espírito. Cruzei a linha de chegada sem desmaiar (milagre!), com a sensação de que, se sobrevivi à Brigadeiro Luiz Antônio, sobrevivo a qualquer coisa.
Voltar para São José foi daquelas decisões cheias de bom senso, escolhida por quem prefere um réveillon mais caseiro do que se jogar na bagunça da Paulista: cheguei cansada, sim, mas com histórias pra contar. A celebração do Ano Novo foi intimista — poucas pessoas, vinho em boa dose, e mais dancinhas do que fogos. Ali, entre amigos e uma salada maravilhosa de salmão, percebi que a virada pode ser grandiosa mesmo sem muito barulho, porque o silêncio também tem seus fogos de artifício.
Pouco antes da meia-noite, embarquei num ritual pouco convencional: posicionei-me diante do altar improvisado no apartamento da minha amiga, onde um Budha e Nossa Senhora Desatadora dos Nós me fitavam, provavelmente já sabiam através de outros santos, das minhas súplicas fora do script tradicional. “Ô, minha santa, dá aquele jeitinho básico”, supliquei, misturando sorriso tímido e aquela fé meio atrapalhada típica de brasileira. Não desejei fortuna nem acontecimentos extraordinários; só pedi por leveza — e, quem sabe, um empurrãozinho para desfazer certos nós cuja origem nem eu sabia explicar.
O que veio depois? Um acontecimento inesperado, daqueles que a gente só percebe o sentido depois que passa. Não cabe detalhar porque sou muito reservada, mas posso dizer que a vida ou a santa, atende aos pedidos do seu jeito torto, às vezes nos desatando por dentro, radicamelmente de uma forma inesperada sem ao menos que você tenha um manual de instruções.
O início de 2026 está sendo uma mistura de susto e acolhimento. Percebi mudanças acontecendo sem aviso, emoções inéditas brotando e outras antigas se despedindo de forma silenciosa. No balanço dos dias, aceito as coincidencias da vida e agradeço pelas pequenas superações. Aceitei, enfim, que tudo passa — até aquela saudade que parece eterna. E sigo, respeitando meus sentimentos para que eu fique mais leve e pronta para as próximas corridas (da rua e da vida), com a certeza de que, no fundo, todo altar é um convite para recomeçar.