Entre escolhas, culpas e corridas

Acordo antes do despertador, o corpo já treinado pela rotina de quem se comprometeu a treinar e a correr alguns quilômetros de uma planilha qualquer. O silêncio do apartamento revela o eco dos meus próprios pensamentos, e é nesse instante, enquanto amarro o tênis, que as angústias do dia se inscrevem nos trilhos da mente. São pequenas pontadas: “Será que escolhi certo?”, “Será que fui clara?”, “E se eu tivesse feito diferente?”

Se relacionar com pessoas não é muito diferente de correr: às vezes, o ritmo está perfeito, outras, o fôlego falta. As palavras, especialmente, pesam nos ombros mais do que qualquer medalha conquistada nas manhãs frias de uma prova de corrida de inverno. Um elogio sincero levanta, um comentário impensado derruba. O poder das palavras é brutal – molda dias, desenha destinos, afeta corações. Quantas vezes revisito conversas, tentando reescrever na memória: “Se eu tivesse dito menos, ou talvez mais? Se eu tivesse lido outras palavras, teria efeitos diferentes?”

Há também as escolhas diárias, aquelas que parecem tão banais, mas que, na soma, definem caminhos inteiros. O café preto ou o cappuccino, a roupa para a reunião, o sim ou o não que escapa na resposta rápida. E, no fundo, aquela sensação crônica de estar fazendo tudo errado, de ser peça desalinhada em um tabuleiro que todos parecem jogar com maestria. A culpa veste diferentes trajes: ora é o olhar do outro, ora é o próprio espelho. Vejo-me com olhos emprestados – colegas que dizem que eu deveria ser mais leve, familiares que pensam que deveria ser mais firme, colegas que imaginam que o amor seria a peça que falta.

Estar num relacionamento é bom e sair de um relacionamento, ah, é como cruzar a linha de chegada exausta – o corpo pedindo para parar e a mente, inquieta, ansiando pelo medo do que vem depois. Existe medo, claro, e também existe o frio da liberdade. O momento certo não é um clarão repentino, mas uma sucessão de pequenas desistências: silêncios que aumentam, planos adiados, palavras cruéis, julgamentos sem nexos,  afeto que vira hábito. Há coragem em ir embora, mas há, sobretudo, a honestidade de admitir: “Aqui não sou mais eu.”

E sigo, mulher balzaquiana, solteira, sem filhos, corredora por prazer, gestora por paixão. Muitos achariam que falta alguma coisa. Mas, no fundo, sei que minha história é feita de pequenas vitórias: o passo a mais na corrida, a equipe em harmonia, o riso solitário diante do espelho. As angústias não desaparecem, mas tornam-se menos afiadas à medida que aprendo que ninguém tem o roteiro perfeito.

Talvez, no fim, seja sobre isso: aceitar o tropeço, perdoar-se pelo erro, escolher de novo e, acima de tudo, calçar o tênis todas as manhãs – para correr da culpa, sim, mas também para correr na direção de si mesma.

Deixe um comentário