Entre Linhas e Labirintos

Hoje, escrevo mais do que costumo — talvez porque seja preciso ocupar as mãos quando a cabeça não para e o peito aperta. Talvez porque, em meio à angústia que me assola, só as palavras conseguem deslizar para fora aquilo que pesa, sem nome, na alma. O cursor piscando se converte em fio de esperança: cada frase escrita é uma tentativa de respirar.

Olho para a foto tirada hoje no treino com as amigas e o meio sorriso que exibo parece autêntico — quase me convenço. Mas sei, e só eu sei, o quanto a curva dos lábios é um esforço calculado diante da lente. O mundo vê vitalidade, coletividade, superação. Só eu percebo o filtro: tudo o que se esconde atrás do clique rápido, atrás da roupa suada, é silêncio e ausência.

Os hormônios dançando descompassados dentro de mim são como maestros descontrolados de uma orquestra desafinada. Bastam pequenos gatilhos: um comentário descuidado, uma mensagem ofensiva, um olhar que parece negligente… e a angústia retorna, inesperada e feroz. O corpo reage antes que a mente compreenda, e de repente estou inteira tomada por uma inquietação que não sei nomear, como se a vida, de uma hora para outra, perdesse o eixo.

O estresse se acumula em camadas quase invisíveis, como poeira nos cantos de uma casa. O burnout (palavra do momento) não chega com estrondo, mas com o cansaço que demora a ir embora, com a vontade de largar tudo, ao mesmo tempo com a incapacidade de largar qualquer coisa. E assim, sigo no piloto automático: acordo, treino, trabalho, preparo as refeições, estudo inglês, luto contra a insônia. Quando o sono finalmente vem, é breve e raso. No dia seguinte, tudo recomeça, como se cada tarefa fosse uma peça de dominó que não pode deixar de cair.

No meio desse ciclo, surge um feriado como o de hoje — um respiro prometido, mas, para mim, um perigo. A rotina, ainda que pesada, mantém minha mente ocupada. O tempo livre se transforma em terreno fértil para pensamentos que prefiro ignorar, para sentimentos que não sei como resolver. De repente, o que era para ser descanso se converte em ameaça: a pausa desorganiza, e o vazio grita.

Decido escrever e escrever, nesse instante, não é buscar respostas definitivas, mas habitar o intervalo entre dúvida e esperança. Aceito que pode não haver clareza imediata, nem solução mágica para o desconforto. Ainda assim, o simples ato de registrar o que sinto transforma o vazio em matéria, e a matéria em possibilidade: de entender, de aceitar, de recomeçar quando tudo parece girar em círculos.

Hoje, deixo que as palavras ocupem o espaço que o silêncio insiste em ampliar. Talvez não curem tudo, mas seguram minha mão enquanto atravesso mais este labirinto.

Talvez tudo isso tenha relação direta com esses hormônios em desordem, mas seria simplista culpar apenas o corpo. Há sentimentos mal resolvidos, memórias que se recusam a se acomodar no passado, dúvidas que se escondem entre uma tarefa e outra. O sorriso forçado na foto, a produtividade crescente, a busca incessante por novidades — tudo isso é também uma forma de pedir socorro disfarçado.

No fim dessa manhã, escrevo para me lembrar de quem sou e de quem não quero esquecer. Escrevo porque, entre linhas e labirintos, talvez encontre alguma saída. E descubro, ainda que aos poucos, que há beleza e coragem em continuar, mesmo quando tudo parece automatizado demais, pesado demais, solitário demais.

Que os dias passem, que os ciclos se repitam, mas que nunca me faltem palavras para transformar angústia em respiro — e, quem sabe, um dia, em alívio.

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