O tempo e o Algoritmo

Não sei em que momento o tempo começou a correr mais depressa do que eu. Olho para os ponteiros do relógio — agora digitais, afinal — e percebo como tudo mudou tão rápido desde que comecei a trabalhar.  Eu, uma mulher balzaquiana, carregando décadas de histórias, ainda me sinto, vez ou outra, aquela menina cheia de sonhos, de planos, querendo abraçar o futuro com os dois braços.

Mas o futuro, esse, chega com pressa. Basta olhar ao redor: em poucas décadas, vimos nascer o smartphone, as redes sociais, a nuvem, o streaming, a impressão 3D, as casas inteligentes, os carros que dirigem sozinhos (meu sonho de consumo) e, claro, a onipresente inteligência artificial. Lembro-me como se fosse ontem, da ansiedade do bug do milénio, da internet discada, dos e-mails cheios de gifs, das salas de bate-papo da uol e agora — num piscar de olhos — converso com assistentes virtuais, armazeno memórias na nuvem e preciso de senhas para tudo.

É difícil acompanhar. Às vezes sinto que a idade pesa menos no corpo e mais na alma, como se cada mudança tecnológica exigisse não só atualização de software, mas também de cérebro. Quantas escolhas fiz para chegar até aqui? Quantas renúncias, quantas tentativas de manter-me relevante num mundo que já nasceu digital para os mais jovens?

Na vida pessoal, tento carregar leveza. Os sonhos permanecem, talvez menos ingênuos, mas ainda vivos. Reaprendo a cada dia o que significa ser adulta atenta ao mundo e, ao mesmo tempo, menina diante dos próprios desejos. O tempo me ensinou que planos mudam, sim, mas também se renovam com uma força surpreendente.

Ontem, participei de uma feira de RH — um desses eventos modernos, cheios de stands reluzentes, telas interativas, robôs simpáticos e palestras sobre o futuro do trabalho. No centro de tudo, a Inteligência Artificial. Vi currículos sendo filtrados por algoritmos, plataformas indicando perfis ideais, chatbots respondendo dúvidas em segundos. Confesso: senti um frio na barriga.

Por alguns segundos, deixei minha atenção flutuar entre a voz do palestrante José Uandson e a inquietação dentro de mim. Enquanto o auditório aplaudia, troquei um olhar cúmplice com minha amiga Rosemeire. Não é fácil ver a máquina, de certa forma, assumir papéis tão humanos. O medo do desconhecido, do obsoleto, bateu forte.

Mas, ao mesmo tempo, havia um fascínio quase infantil. A IA também traz possibilidades incríveis: personaliza experiências, antecipa necessidades, liberta tempo para a criatividade e a empatia — aquilo que, espero, ainda faz de nós únicos. Encanta-me ver jovens e veteranos trocando ideias, aprendendo uns com os outros, tentando entender como conviver com as máquinas sem perder a ternura.

No fim do dia, percebo que a velocidade do tempo e das mudanças é irremediável. Cabe-me, então, não resistir, mas dançar esse compasso acelerado, escolhendo o que faz sentido, acolhendo o novo sem perder o brilho da menina que ainda sonha.

E, quem sabe, aceitar que a tecnologia não é fim, mas meio para construirmos novas histórias. Porque, no fundo, o tempo avança, os algoritmos evoluem, mas são os sonhos — esses, sim — que ainda movem as engrenagens da vida.

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