
O primeiro perfume importado que eu comprei é o que, intercalando com outros, uso até hoje. J’adore da Dior. É engraçado como somos sensoriais. Um simples perfume pode trazer à tona sentimentos, amores esquecidos e lembranças que você quase não visita.
Minha primeira compra foi mais ou menos no ano do lançamento da fragrância, eu era uma menina (continuo sendo, só que hoje sou uma menina com mais experiência. rs).
Pessoas próximas sentiam meu cheiro e perguntavam qual era meu perfume. Era novidade! E eu sentia prazer em dizer que o termo significava “eu amo” (palavra que eu acho bem difícil de se pronunciar quando penso no sentido romântico, mas que não tenho dificuldades de falar no sentido fraternal)…
Engraçado que hoje, antes de escrever esse texto, pesquisei ao pé da letra o nome do perfume e na verdade, significa “adoro”. Me corrijam os fluentes em francês, porque até o Dr. Google não foi claro. Rs.
Amar e Adorar talvez sejam expressões semelhantes. Passei décadas achando que o meu perfume era um “TE AMO” de letras garrafais, mas agora, por mera curiosidade, no sentido literal é um “eu adoro”. De repente faça mais sentido pra mim!
Há quem diga que quem pronuncia “eu te adoro”, no fundo tem medo de dizer “eu te amo”, então como o assunto é complexo, voltamos ao perfume. rs
Usei por tanto tempo… E usava muito. Na pandemia, meu frasco acabou e como tudo ficou relegado a um segundo plano (até listado como futilidade), fiquei um bom período sem ele no meu guarda-roupa.
Que tristeza, era como se eu tivesse perdido uma parte do que fui, e desculpa o trocadilho, perdi a minha essência! De repente, comecei a usar os outros que eu comprava no intuito de me “apaixonar” e por fim, tive que me acostumar a viver sem aquilo que me fazia tão bem. Assim como temos que fazer com alguns amores e com algumas amizades… Fiquei à mercê, achei alguns substitutos no meu guarda-roupa. Eu amava todos os outros e usava todos eles, mas nunca esqueci do principal…
Banho após banho, saída após saída, eu já nem lembrava mais… Até que no ano passado, em uma das minhas viagens internacionais me deparei com ele no Duty Free.
Quando vi aquele frasco meu coração acelerou, uma alegria tomou conta de mim e corri para comprar duas unidades (quem me conhece bem, sabe que quando eu gosto muito de algo, compro em dobro pra não correr o risco de ficar sem).
Não sei se é algum trauma do passado, ou se é só uma característica minha, sempre digo que tudo que eu amo muito vem em uma embalagem escrito “tempo limitado”, assim como aconteceu com o melhor produto que já usei para o meu cabelo (na época cacheadíssimo) que se chamava MoonShine da Wella, assim como aconteceu com a melhor cor de base da Lancôme para minha pele e, assim também como aconteceu com amores, amizades e lugares…
Então, para não correr o risco do “Por tempo limitado”, compro em dobro. E, talvez se eu fosse herdeira, compraria muito mais…
Lembro-me que, de volta pra casa, olhei aquela sacola do Duty Free tentando me convencer de que valia o investimento.
Parece aquela clássica cena dos desenhos animados onde o diálogos internos são representados por um duelo entre um anjinho e um diabinho, sabem? Às vezes uma verdadeira batalha entre razão e emoção se trava dentro de nós!
O anjinho me lembrando e alertando o tempo todo de que não sou herdeira! Lançou-me pensamentos sobre as armadilhas da compulsão e sobre a fatura do cartão de crédito, já o diabinho não só lançou pensamentos como falou ao pé do ouvido de forma poética e persuasiva: – “Não, Kátia! Não foram dólares que você gastou e sim dólares que você investiu. O que você está levando pra casa são os amores que você teve, as amizades que ficaram pra trás, os lugares que você se divertiu… Essa é a essência que te acompanhou!
Da fatura do cartão de crédito não tenho nenhuma recordação, mas não me esqueço da sensação de girar a tampa do J’adore e borrifar sobre meu pulso…
Não tinha um cheiro de jasmim já que eu não conheço o cheiro de jasmim, mas era suave, como morango e creme, uma brisa fresca numa tarde de sol frio que nos arrepia um pouco a pele, talvez fosse uma fragrância com um toque de alívio, como tomar um copo com água no calor, tinha um “quê” de passado bom, como apaixonados que se encontram às escuras, havia violetas e carinho e no fundo um tom picante de canela.
Aquele cheiro invadiu minhas lembranças e lá estavam todas elas… Todas as minhas histórias. Era como se eu estivesse voltando para casa. Então, percebi que sim, voltei para minha essência.
Obrigada, Dior!