Sobre etarismo, halloween e outras coisas mais…

Glória Maria partiu sem que ninguém soubesse ao certo sua idade. Passou a vida dizendo que era mais jovem do que a idade que realmente tinha. Acho adequado: a vida costuma estar cheia de ficção…

Meu pai, passou 5 anos da vida dele comemorando seu aniversário de 45 anos. Recordo-me de perguntar-lhe se já não tínhamos comemorado no ano anterior essa mesma idade, o que obviamente ele negava fervorosamente. Até hoje, muitos amigos, não sabem ao certo quantos anos efetivamente ele tem.

Às vezes acontece da imagem mental que temos de nós mesmos não bater com o que dizem os documentos, os números ou as expectativas que nos atravessam durante a vida. Então a gente inventa. E inventa pra não ser cobrada pela sociedade que teima em nos colocar em caixas etárias.

Quando você pensa em cobrança etária o que vem a sua mente? Na minha vem cobranças do tipo: 20 anos na faculdade, 30 já deve estar casada, 40 com filhos pequenos ou não, mas com filhos… Sair desse contexto gera cobranças, desconfianças, ou, digamos, certa curiosidade…

Conversando hoje com uma amiga no trabalho, (Rosania, você foi citada aqui) eu disse pra ela que entendo perfeitamente porque as bruxas eram queimadas na fogueira da inquisição. Elas até podiam ter nariz adunco com verrugas na ponta e usarem chapéus pontudos, poderiam até preparar poções em caldeirões (de repente parecido com os risotos que eu tento fazer e nunca acerto o ponto) e talvez até tivessem gatos pretos como animais de estimação. Mas não se enganem eram mulheres como eu que não se enquadravam nas regras da igreja e, consequentemente, no padrão da sociedade e, com isso, eram torturadas até confessarem coisas absurdas.

Assim, por meio dessas confissões o mito ganhava credibilidade.  

Eu sou a bruxa da atualidade, descendente da bruxa da Idade Média.

Mas voltando ao assunto da velocidade do tempo, porque hoje quero dissertar sobre isso e sobre halloween e bruxas (já que não sou obrigada a nada), o problema é que o tempo é indiferente aos nossos desejos. Ele passa e carrega a todos. Por mais que nos apeguemos a uma fração da nossa vida em que tínhamos mais colágeno, mais tempo livre e mais falta de noção para o ridículo, em um piscar de olhos (ou dois anos entocados para não morrer numa pandemia), a gente se percebe como o tiazona esquisita que fala “como você cresceu, eu te peguei no colo!” para uma criança que não se lembra de você e que fica desconfortável com o nível de intimidade com que você fala com ela.

Que loucura, agora somos nós do outro lado do constrangimento. Vai ver por isso há quem se incomode em encontrar crianças no rolê e também se deparar com a verdade incômoda de que envelhecemos, de que não somos os jovens que imaginamos ser.

Para o meu olhar de criança, adultos eram como totens altos demais para alcançar, com a cabeça acima das nuvens, cuidando de assuntos que eu sequer podia imaginar, de forma que o que eu mais conseguia ver eram as sombras gigantes que eles projetavam no chão.

Envelhecer é o processo de nos tornarmos esses varapaus ameaçadores e misteriosos, e de descobrir, com nossos próprios olhos, que a vista para acima das nuvens é bem deprimente na maior parte do tempo e por isso, como expressado na minha conversa de hoje precisamos de muita terapia, já que o pensamento fica meio enevoado com o acúmulo de medos.

Ver as mudanças que a idade opera já é um processo estranho. Meu corpo por exemplo, ganhou novas dimensões, meu metabolismo já não é mais o mesmo, surgiram alguns estalos e marcas de expressão, tive queda da minha resistência física, de cabelos e de entusiasmo para acompanhar cada nova moda (todas passageiras e vazias)… Mas, minha disposição para aprender continua, com a vantagem de um cérebro mais afiado, que passou por mais experiências.

Envelhecer também é poder, vai por mim…

Se tudo der certo, vai chegar a vez de cada uma dessas crianças e jovens de hoje passarem por esse processo. Até lá, somos nós, os adultos “cringes”, os responsáveis ao volante. (Bem, não sou tão responsável assim no volante, até porque me sinto uma adolescente de 18 que acabou de tirar carta, mas acho que entenderam o que quis dizer, né? Rs)

E não é preciso ter filhos para também termos a responsabilidade de sermos influências positivas para as crianças que nos cercam. É por imitação que, primeiro, se aprende.

Não dá para saber ainda o que o gesto de se aprisionar em uma versão adolescente de si mesma, na resistência de assumir o chamado para ser adulta, vai ser entendido pelas gerações mais novas. Mas espero que seja a percepção de que o tempo pode ser terrível, mas é também o único veículo conhecido capaz de nos levar a versões mais poderosas de nós mesmas.

Gostaria de ter o colágeno de outrora, por outro lado, como abrir mão da maturidade de hoje?

Gostaria de ser a Cinderela e viver um conto de fadas com final feliz, mas cá entre nós, exceto pelo horário onde a magia se acaba pontualmente meia noite, estou mais para a bruxa que trocou a vassoura pelo tênis de corrida, o gato preto por um cachorro shitzu e cujas as poções mágicas são por vezes de Cabernet Sauvignon, Tannat, Merlot, Malbec, Pinot Noir, Chardonnay e por outras de Sauvignon Blanc.

Por falar em poção mágica…  

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