Hair

Hair mora numa casa de esquina confortável em Caçapava. Costuma dar um pouco de trabalho nos quesitos relacionados a sua saúde. Sua mais recente proeza foi desenvolver um problema de coluna.

Sentado no portão da casa da minha mãe, Hair parece contente em me ver, mas sei que ele está com dor. Hoje ao chegar na casa da minha mãe o assisti mancar enquanto vinha na minha direção e me senti um bocado inspirada a escrever. Do que será mesmo que ele está rindo? Do meu salto alto? Da vida? Das mazelas da vida criadas por mim na casa da minha mãe?

Hair é um canídeo ordinário (apesar de ter raça) sem pulgas e sem boletos. É vê-lo sentado daquele jeito com o rabinho abanando é uma graça. Tenho uma certa queda por cães com ar patético. Nota-se que o Hair abana o rabo de um lado para o outro, como se fosse um espanador a varrer o assoalho da varanda. Talvez, ao abanar o rabo, os cães encontram uma forma explícita e direta de demonstrar gratidão, apreço, felicidade e compaixão.

Suponho que se alegrar não seja uma tarefa assim tão difícil para um cão quanto é para um ser humano. Ainda mais, para um animal como aquele, criado no bem bom, dentro de uma casa confortável, no seio de uma família de classe média composta por pessoas gentis, pacíficas e amorosas que o tratam como se fosse alguém da família. E não é que ele seja mesmo?

Hair estica o pescoço para a frente, na minha direção. Por alguns instantes fecha os olhos. Fareja segredos no ar. Medita algo misterioso, seja raso, seja profundo. Pula nas minhas pernas para que eu me abaixe e o deixe lamber meu rosto. Esse é o cumprimento dele.  

Em meio a tanta calma, não adivinho, nem estimo, se o Hair possui alma, se cogita ter filhos ou reencarnar numa bisteca ou capturar com os dentes uma ave distraída, desconecta. Até onde eu sei, na minha santa ignorância, os cães não costumam implicar com a companhia das aves, a ponto de desejar comê-las. Exceção registre-se às galinhas. Em geral, a cachorrada adora perseguir os galináceos pelos terreiros para se exercitar, para se divertir, para tocar o terror ou para fazer uma boquinha mesma. A natureza animal é bela, mas, sofre também de determinadas brutezas.

Hair mantém-se ereto, numa postura impoluta, elegante, autodeterminado, simulando a classe de um gato. Ele não tem nada contra os felinos. Apenas sente ciúmes da presença deles e eu compreendo muito bem o que seja isso. Minha mãe alimenta três gatinhos que passam na casa dela todos os dias no mesmo horário apenas para “filar a boia”. São interesseiros e nesse quesito (apesar de ama-los), até parecem humanos.

Hair permanece numa postura indecifrável, sentado no portão, se passando por gente, fingindo que não está nem ali. Vida de cachorro é suave. Independentemente de morar numa casa de família ou sob a marquise de um prédio abandonado que serve de refúgio para outras famílias que moram na rua. Os cães sabem nada a respeito das situações inconcebíveis e das injustiças sociais engendradas pelos seres humanos. A despeito disso, eles gostam mesmo é de gente. De gente boa. De gente nem tão boa assim. De gente nobre. De gente pobre que tira a comida da própria boca para alimentar o pet que sente fome igual. Amor é um sentimento desigual que não tem nome, mesmo assim a gente inventa um vernáculo mais coloquial.

Ivaneide, a dona do Hair, diz que é a sua mãe (e que coincidência, é minha mãe também. Rs). Com a propriedade de quem viu o bichinho nascer de parto normal numa barrigada de filhotes absolutamente normais, ela conta que Hair fica assim nesse estado diferente e mancando porque ela parou de dar um remédio controlado a ele.

Mas sempre que algum de nós abre a portinhola que dá acesso à casa, ele dispara, dá um mortal, rodopia, derrapa e late. Depois de muito brincar, como se fosse criança, Hair dá um tempo, arfa saciado das brincadeiras e se senta. Parece sentir dor, ao mesmo tempo que parece pensar na vida.

No que será que pensa o Hair, o jovem shitzu de nove anos? Em nascer gente? Em viajar pelo mundo? Em latir noutra freguesia? Em espantar seus amiguinhos que vão no portão da casa da minha mãe em busca de comida? Em subtrair passarinho, com as artimanhas de um gato, quando ninguém estiver vendo, filmando ou escrevendo? Em lamber os pés suaves, morenos, do seu dono que tem nome biblico (meu amado pai José), em retribuição de carinho, de afeto e de amor?

Diz o ditado que o cão não faz rima e que ele é o melhor amigo do homem. Em desequilíbrio, resta a sensação de que o homem não é seu melhor amigo.

Apesar da simplicidade, Hair demonstra que entende um bocado sobre a essência das coisas, já que não se incomoda com outros cachorros que passam diariamente frente à minha casa, latem, esperam a ração (que minha mãe compra todos os meses para alimentá-los) e partem.

Hair observa o movimento e entende que nem todos os cachorros tem melhores amigos e eu o entendo também…

Infelizmente…

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