E o projeto maternidade?

Estou eu aqui, desistindo de uma aula de spinning que faria hoje 19h15 com uma amiga para escrever… Não sei! A inspiração sobre esse assunto veio em meio ao caos de um dia tenso como o de hoje!

Participei de uma corrida nesse ultimo domingo e entre risadas, conversas e trocas de experiências o assunto maternidade surgiu novamente. Claro que eu não estou aqui para falar da incrível experiência no mundo da maternidade, afinal, nem posso, mas estou aqui para falar o que é não ser mãe por escolha.

Mas por que você não quer ter filhos? / uma mulher só é completa quando se torna mãe / você vai se arrepender! / é uma decisão egoísta / você nunca vai saber o que é o verdadeiro amor / mas quem vai cuidar de você na velhice?

Passei os últimos 10 anos da minha vida ouvindo isso tudo (e muito mais) e hoje, por alguma razão, tive vontade de escrever sobre esse dilema ou problemática em torno da vida de alguém que não têm filhos por opção, por convicção, por falta de espaço na de agenda, por estilo de vida. Sei lá qual a razão principal, mas ela existe!

É muito interessante tudo o que eu já aprendi nesse curto período. Quando decidi não ser mãe algumas coisas a respeito da cultura patriarcal, que ainda não estavam tão evidentes para mim, foram ficando mais claras. Outra coisa que eu nunca havia percebido é que a maioria das pessoas estão tendo filhos sem nenhuma reflexão do que de fato isso significa, estão apenas presos a convenções sociais. Desconheço quem tenha sido encorajado a questionar-se sobre isso desde a infância – querer filhos é algo INQUESTIONÁVEL na nossa sociedade. É a regra hegemônica. Ponto.

Não estou dizendo que é caso de alguém que esteja aqui preso a essas palavras sem sentido ou com muito sentido (rs) e que tenha filhos ou que queria ter, mas posso afirmar que a maioria dos pais acabam simplesmente tendo filhos por acaso, acidentalmente; e outra parte planeja sua vida como se fosse um roteiro (namorar, noivar, casar, comprar uma casa e ter filhos), sem nunca sequer se questionarem se é isso que desejam, mas acreditam piamente que sim, pois as pessoas estão culturalmente condicionadas a isso. 

Há séculos que a reprodução não é mais uma questão de sobrevivência: hoje ela é socialmente imposta à espécie humana. Explico: o modelo atual de maternidade foi criado pelo sistema que de alguma forma no passado doutrinava as mulheres, condicionando-as à maternidade, excluindo-as da vida pública e restringindo-as à vida privada. É por isso que o patriarcado era um sucesso de público e de crítica: porque essa era a forma mais eficiente de manter a ordem social inabalável: quanto mais filhos as mulheres gerassem, mais presas ao ambiente doméstico elas ficariam (essa era a principal diferença entre a maternidade e a paternidade: o homem não abria mão de quase nada). E era exatamente isso que a sociedade do passado queria: que as mulheres ficassem quietinhas dentro de casa, e de preferência que nem conversassem muito entre si, que é para não caírem na real!

Exemplo disso, minha avô paterna com 14 filhos! Oi!?

Claro que muita coisa hoje mudou, mas ainda há pouco espaço na sociedade para se questionar e debater a maternidade e suas consequências. A menina geralmente ganha sua primeira boneca antes do primeiro aniversário, e cresce acreditando que ser mãe é o seu maior sonho e seu maior desejo. 

Não quero convencer ninguém a não ter filhos, tampouco vejo problema das pessoas desejarem ter filhos, acho até admirável idealizar isso. Longe de mim ser childfree radical, ou antinatalidade. (hehehehe) Mas, assim como eu respeito a vontade dos outros de sonharem com a maternidade, acho que as pessoas deveriam encarar com mais normalidade o fato de algumas mulheres não quererem ter filhos.  

O engraçado é que há quem entre nesse ciclo vicioso de “cobrar filhos” dos amigos e familiares. Não importa qual a sua intenção e como é sua experiência na maternidade/ paternidade: algumas pessoas simplesmente não estão dispostas (nem interessadas) em vivê-la. Então, acho que já fui esse tipo de pessoa ao questionar amigas recém casadas e até minha irmã. (Se alguma dessas lerem essas palavras me perdoem! Se eu questionei foi por pura falta de assunto. Hahahaha)

E ser questionado pode ser desconfortável. Eu sei!

O curioso é que, apesar da minha decisão só impactar a minha vida, por alguma razão isso incomoda muito os outros. Estou sempre me justificando para o mundo (até para desconhecidos) sobre o porquê não quero ter filhos. Mas o contrário não acontece; então, ultimamente eu tenho gostado de devolver a pergunta – “E você, por que você quis/quer ter filhos?” 

Algumas amigas não sabem responder, mas já ouvi: “Sabe que eu não sei por quê? Só sei que eu quero, sempre soube. Desde criança tenho vontade…”. Como é possível saber algo dessa envergadura desde criança? Eu arriscaria dizer que isso é fruto de uma doutrinação ideológica. 

Vai por mim! As pessoas não estão preparadas para essa pergunta. rs

Outras amigas não preciso perguntar pois tem um dom tão grande em cuidar, brincar, tratar que eu arriscaria a dar um filho ou filha (se eu tivesse) para elas batizarem.

E é bom deixar claro que mesmo que algumas pessoas digam que quem opta por não ter filhos são pessoas que não gostam de crianças e, na verdade (embora algumas pessoas não curtam muito mesmo), a maioria só não quer ser responsável por uma. Simples assim!

Porque, gente, vamos combinar: educar um serumaninho exige tempo, dedicação, dinheiro, paciência, resiliência e uma vontade absurda de abdicar da própria existência para viver em função do outro. 

E não me venha com essa de que “ah, mas o sorriso compensa tudo!”, porque romantizar maternidade (ninguém padece no paraíso) está completamente “démodé”. Pra mim, sem ser egoísta, o meu sorriso também compensa e encerrar o expediente e decidir o que fazer com o meu tempo livre (se vou na aula de spinning ou se escrevo um post) também me faz feliz.

Ps: Eu posso sim mudar de opinião, afinal, “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”…

2 comentários Adicione o seu

  1. Avatar de Kelly Leal Kelly Leal disse:

    Muito bem nega !! Disse tudo !

  2. Avatar de Bitcoin Hodler Bitcoin Hodler disse:

    Só quem pensa fora da caixa é livre de verdade, parabéns.

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