Às vezes, a gente só precisa escrever.

Olá, tudo bem?

Faz um tempão que não conversamos. Essa missiva sem propósito e cheia de desconcerto é para que saiba da minha falta de novidade.

A casa está uma bagunça, a poeira acumula nos cantos das paredes e alguns bichinhos voadores que, ainda não descobri de onde vieram, conquistaram usucapião na cozinha.

A única plantinha natural que eu tinha era uma orquídea bem pequena que ganhei da Suzan (amiga do Cross) que durou tanto tempo e acabou murchando nessa semana, ficou rouca de tanto me pedir para aguá-la, ao menos um pouquinho. Finjo não ouvir, ando tão ocupada!

Preciso ir para Caçapava trabalhar presencial no período da tarde e no final do dia levar meu avô no consultório de aparelhos auditivos, mas ainda são 12h30 e já fui correr, já fui treinar, já elaborei o material do treinamento que vou dar a tarde e já até encontrei uma amiga que fez uma pós-graduação comigo no percurso da corrida, denominado via oeste. Como é possível encontrar um amigo na rua e não abraçar ou dar beijinhos no rosto, trocar confidências insólitas, contar piadas? Difícil lembrar que estamos de mascara e não vemos o sorriso do outro.

Ouço o barulho na cozinha da vizinha, imagino o cardápio e o critico mentalmente por ela saber cozinhar o básico com um cheiro tão convidativo.

A cidade segue barulhenta em seu mutismo.

Os óbitos por Covid-19 diminuíram e isso me deixa mais feliz. Eu nem sabia que era possível ficar tão triste pelo desaparecimento de pessoas que eu nem conheço ou de pessoas que pensam tão diferente de mim. Sim, é possível e necessário. A morte é o mais natural dos fenômenos e o mais desconcertante.

Tenho medo de ser o próximo obituário. De não poder continuar, apesar de estar fazendo a minha parte. Ainda nem escrevi aquele livro. Há muitas histórias que eu quero viver. Vivo sonhando com um mundo onde não existam maus tratos aos animais. Os cachorros perdidos por aí sem nome e pedigree me comovem ternamente. Quero ter tempo de viajar, de me conectar melhor com a minha família, com meus amigos. Preciso de mais tempo. Do implacável tempo que nos escapa como água na peneira.

Abro a sacada do apartamento do 13 andar e dou uma pausa para ouvir o barulho dos carros circulando na via Dutra. Vejo alguns pássaros também. A essa hora parecem conversar como quem sabe das coisas e pode planar a céu aberto. Eles gostam de andar em bando, como nós. Tão frágeis e lindos!

O dia está um pouco nublado e tenho sede de suco de laranja com gelo e sem açúcar. Não sei o que vou preparar agora para o almoço. A conta do mercado está cada vez mais alta e a sacola, mais vazia.

É só.

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