Um ano toxico

Não sei você, mas nesses últimos dias do ano tenho me sentido meio intoxicada. 2020 já deu! Abro as gavetas e só vejo bagunça, reparo um trincado feioso na película do meu celular, futrico as maquiagens e descubro que várias já passaram da data de validade. Esbaforida, percebo que a pesquisa de satisfação do cliente da empresa que eu trabalho, prometida para antes do natal, está atrasada — de novo! — e que a dieta que me comprometi a fazer acabou ficando para o mês que vem, assim como algumas médicas também…

Aflita, percebo estar atrasada em algumas áreas da minha vida. Abro a sapateira, o armário de roupas, o de cosméticos e os vejo abarrotados de objetos que não uso. Os livros que leria este ano ainda estão envoltos em um plástico irritante, ao lado das revistas semanais que se acumularam ao longo dos últimos meses. E ainda assim, não consigo resistir a comprar algum livro que eu tenho interesse, mesmo que eu tenha uma lista a serem eliminados na frente. E analisando friamente, observo que metade de minha agenda está inconclusa para 2020. Daqui pouco mais de uma semana já estaremos em 31 dezembro e isso está parecendo até pegadinha.

Nunca tive pressa para que o tempo passasse rápido, principalmente depois de certa maturidade. Quem tem pressa que o tempo passe é jovem. Eu já comecei a economizar, a esticar os meses, a gostar que agosto tenha sempre uns 50 dias. Mas 2020 passou dos limites. Na retrospectiva do ano, tirem da sala as crianças, os velhos, todo mundo que ainda tenha alguma sanidade mental preservada. A pandemia transformou 2020 num atropelamento coletivo, uma maratona de filme de terror, uma Black Friday brasileira. E só deve acabar em 31 de dezembro de 2022.

Sabemos que a vacina está logo ali, dobrando a esquina, mas temos um “desgoverno” que acredita em remédios falsamente milagrosos como a cloroquina e não na vacina e os anti-vacina (movimento que só achei que pudesse encontrar em livros de ficção cientifica).

De qualquer forma, acho que devemos ter só um pouco mais de paciência. A gente já esperou tanto, né? Já pensou, depois de tanto cuidado, dar uma relaxada, não se vacinar, fingir que o vírus foi embora se contaminar e bater as botas? Nadar, nadar e morrer na praia?

Cenas como essa em nossas mentes merecem uma faxina e nada mais justo do que providenciá-la no último mês do ano. É sempre interessante faxinar a casa, o espírito e começar o próximo ano com o pé direito. Para isso, são necessários esfregão, música bem alta e alguns dias na agenda — de preferência uma semana inteira. Vamos “feng-shuizar” o ambiente.

Primeiro, o guarda-roupas. É bom tirar tudo lá de dentro e jogar em cima da cama, junto com todas as pessoas que integram o meu dia a dia. Devo fazer uma criteriosa análise e selecionar aquilo e aqueles que de fato merecem permanecer. É importante ser honesta nessa hora, ou algumas peças e pessoas voltarão por puro comodismo. Faz sentido guardar aquela calça 36 que não serve desde que eu tinha 20 anos? É interessante manter a amizade com aquele colega de trabalho que se sente bem ao humilhar a faxineira, o motorista ou o pedreiro todos os dias?

Quero limpar meu guarda-roupa e devolver apenas o fundamental. Na primeira oportunidade que eu tiver, vou doar as roupas em mãos e abraçar (de mascara) aquele que as receber. Elas podem ser peças importantes na faxina desse receptor. Já o colega de trabalho, bem… Não preciso doá-lo a ninguém!

Seguindo assim, vou passar para a sapateira. Os sapatos são os responsáveis por conectar nossos pés ao chão. Talvez seja hora de repensar os pilares que norteiam a minha vida, a fim de checar se andam mesmo bem sólidos. Seja salto, seja tênis, vou fazer uma triagem do que deve ou não ficar… Lembrando que se o sapato incomoda demais, ou se eu simplesmente não o utilizo, talvez seja hora de repensá-los. Repensar o óbvio é fundamental.

Próximo passo: revistas e livros. Esses itens tendem a acumular poeira, mofo e energia parada. Será que eu realmente vou ler aquela SuperInteressante que eu adoro de dois anos atrás? Será que não compensa passar aqueles livros já lidos para frente? Fora os que são de estimação, será que alguns não seriam mais úteis ao mundo se passados adiante?

Terminando essa etapa vou para aquele pequeno armário do banheiro. Certamente há produtos ali que eu guardo há séculos, assim como aquelas dores e mágoas que sutilmente foram se acumulando de uns tempos para cá. Banheiro é lugar de limpeza e não um depósito de coisas inúteis.

Escrevendo esse texto pensei em algumas mágoas tem me causado incômodo, aqueles perdões que não fui capaz de conceder e aquelas palavras amargas que foram proferidas de forma não intencional.

Éh! Final de ano tem cara de faxina, de colocar as coisas em dia e riscar velhas pendências da agenda. Hora de levar o carro para a revisão, fazer check-up da saúde, dar uma melhorada no visual e no cabelo, ajustar as roupas na costureira, colocar a moldura no quadro encostado e finalmente ir tomar um vinho em companhia dos amigos com os quais você vive remarcando o encontro.

Afinal, de nada adianta pular sete ondinhas e esperar que as coisas aconteçam de braços cruzados!

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