
Um dia desses estava assistindo The Marvelous Mrs. Maisel que nada mais é que um seriado de comédia ambientado no final dos anos 50. A produção mostra uma mãe e dona de casa, que após ser largada pelo marido se torna uma comediante de stand-up. Até aí, tudo bem! Agora… Não para aquela época!
Mas hoje, que fiquei o dia inteiro sem acessar o sistema da empresa, sem receber e-mails e praticamente acreditando que o dia foi improdutivo pensei no seriado e na época em si.
Eu sou de uma geração que viu muitas coisas mudar no que se refere à tecnologia e comportamento. Aliás, adoro essa frase “sou de uma geração”. Já sou experiente o suficiente para me colocar numa geração diferente de quem veio depois de mim e suficientemente jovem para que isso não me aborreça.
Voltando… Eu vivi num tempo onde as coisas eram super diferentes do que são hoje. Eu levei rolos de filme para revelar na Fotótica. Eu usava telefone fixo para falar com as minhas amigas da escola, eu ligava pra minha mãe do orelhão, depois disso eu tive um Nokia tijolão. Já andei de mobilete, já brinquei de salada mista (pera, uva ou maçã), já pulei elástico, já joguei queimada, já brinquei de pular corda (hoje pulo pra emagrecer). Eu usei internet discada, computador com monitor de tubo, eu já digitei no MS-DOS! Gente, pelo amor de Deus, MS-DOS!
Ou seja, teoricamente, as transformações em decorrência da tecnologia deveriam ser de fácil aceitação para mim. Por que então eu não posso conceber a ideia de ser produtiva num dia sem sistema e sem e-mails?
Eu comecei a viajar num futuro onde escrever utilizando um notebook seja tão vintage quanto hoje é escrever numa Olivetti Valentine. Já me imaginei uma coroa dessas super estilosas, com cabelos assumidamente brancos, bijuterias chamativas e óculos de armação grande… Eu seria a sensação dos jovens da família.
Mas e se eu nem tiver cabelos brancos quando a escrita for algo completamente diferente do que é agora? Sim, pois o futuro hoje chega cada vez mais rápido. Muito mais rápido que chegava no passado. Será que eu serei uma jovem mulher madura que não terá outra alternativa a não ser ditar meu diário eletrônico para um plasma inteligente?
Eu não posso! Jamais conseguiria! Impossível! Eu preciso escrever com as mãos ou digitar no computador! Preciso sentir o percurso do pensamento saindo da cabeça, descendo pelos braços até sair pelas pontas dos dedos. Eu preciso poder organizar as ideias na tela, dentro da cabeça elas formam uma balbúrdia! Se tiver que escrever falando, eu vou pifar o dispositivo ainda no primeiro parágrafo.
No meio da minha crise lembrei que já li um artigo dizendo como algoritmos já vêm sendo utilizados para desenvolver textos inteiros, e como em pouco tempo, computadores poderão compor histórias, matérias e reportagens com perfeição. Eu ainda nem escrevi meu livro e já estou extinta! Socorro!
Depois de me acalmar, ponderei que as mudanças ocorrem paulatinamente. Não é que um dia eu vou acordar e meu notebook terá sido levado para um antiquário junto com outros objetos ultrapassados como Iphones e PlayStations. Não. Calma. Todo mundo fica calmo. As formas de comunicação vão mudando, evoluindo, e as pessoas vão explorando novas capacidades e aprendendo novas competências. Pronto. Não é o fim do mundo. Acho.
Afinal, eu gosto das modernidades. E também gosto de ler livros, assistir filmes ou séries que me transportam para anos à frente. Adoro ver aquelas coisas bem futuristas que por enquanto só funcionam na imaginação de quem, ainda no passado, tenta antecipar o futuro.
Mas pensando agora, no presente, eu também gosto de viajar pra trás. Já concluí mais de uma vez que nasci no século errado. Eu ia adorar os anos 50, 60, 70… E se eu tivesse vivido nos anos 30, tenho certeza de que seria uma intelectual metida a besta e apreciadora de vinho. E já imagino como aqueles vestidos fabulosos com corseletes valorizando o decote, que se usava entre os séculos XV e XVII, me cairiam bem, afinariam minha cintura (que nem com reza brava e simpatia acontece nos dias atuais).
E agora? Que impasse. Tenho um pé no passado e outro no futuro? Será que estou sozinha nessa? Há outros atemporais por aí? Tem mais gente que tem metade das listas e lembretes anotados num papel e o resto no bloco de notas do celular? Aqueles que têm livros na estante e e-books no Kindle, levantem a mão (pode mandar um emoji)! Quem assina spotify, tem playlists com 12322 músicas no computador, mas não tem coragem de jogar os CD’s mais queridos no lixo? The Cramberries e Janis Jopplin que decoram minha gaveta são exemplos disso.
Enquanto não encontro a escadaria mágica de onde partirei à meia noite para o passado ou para o futuro – com todo respeito Woody, mas no meu “Meia Noite em Paris” a pessoa teria a opção de entrar num Peugeot 184 (passado) ou num foguete Falcon 9 da Space X (futuro) – vou tratar de aproveitar enquanto ainda posso dedilhar meu teclado pré-vintage e observar minhas ideias bagunçadas organizarem-se magicamente na tela LCD do meu notebook (rs)
Vou viver o presente antes que ele se torne o passado e quando chegar a hora de “escrever” meus posts falando, eu vejo o que faço. Falo. Digo. Dito.