Mudaram as estações…

Combinei de reencontrar uma amiga de faculdade que há algum tempo não via. Marcamos em uma avenida movimentada de Taubaté às 19h, mas o ambiente ainda estava vazio quando chegamos. “Os bares ficam bons a partir das dez da noite”, alguém disse. “Dez da noite num dia de semana? Nesse horário já estarei quase encerrando a conta.” — pensei. Sentamos num sofá atrativo de um dos bares dessa avenida e logo fomos olhar o cardápio para verificar se algo nos agradava, afinal era um happy hour informal para regar uma conversa de amigas com muitas novidades a serem contadas.

A verdade é que com essa amiga o nível de intimidade é tão grande que somos capazes de apontar, uma da outra, as qualidades (que são várias!), mas também os defeitos (porque todo mundo tem!), mas a gente se ama acima de qualquer TPM.

– Garçom, por favor, que tipo de vinho vocês tem na casa? – Vinho senhora? Temos o vinho Dani. Pensamos melhor e indagamos: – Nada contra o vinho Dani, mas teria alguma outra opção?

E o garçom muito atencioso, logo responde: – Tenho outra opção sim! Temos caipirinha em dobro hoje.

Olhamos uma para a outra, pedimos desculpa, nos levantamos e atravessamos a rua para o bar concorrente que sabíamos que oferecia a proposta que queríamos para aquela noite.

A avenida começou a ficar movimentada de gente no horário previsto: parecia que uma cidade inteira vestindo o mesmo estilo de roupa surgira do nada. No outro lado da rua tocava uma música que não tinha letra para cantar, e o som parecia uma batida só: tuts, tuts, tuts (ou era putz, putz, putz?).

Corpos masculinos bombados e mulheres bonitas. Enquanto conversava com minha amiga ao som de MPB, com uma taça de vinho na mão, me passou algo na memória da época em que tanto eu, quanto ela curtia festas barulhentas, quando virava a madrugada e ia direto para o serviço. Também me lembrei dos carnavais: assistia aos trios elétricos da cidade ou os seguia pelas ruas.

Continuamos a nossa conversa, já que com ela confio os segredos mais íntimos, aqueles que muitas vezes não conto nem na frente do espelho, e quando nos juntamos conseguimos conversar por horas emendando um assunto no outro com uma facilidade absurda! Podemos passar algum tempo longe, mas quando nos encontramos é como se conversássemos diariamente. Somos capazes de dar boas risadas juntas, em qualquer lugar, sob qualquer circunstância, inclusive nas piores. Aliás, as piores são sempre as melhores, pois fazemos piada da nossa própria desgraça.

E voltando ao assunto da diferença de quando estudávamos juntas para hoje é que apesar de gostar com parcimônia de algumas baladas e festas de carnavais, já que antes de falar o tal famoso “vamos” alguns fatores são levados em consideração: Quem vai? Qual a banda? Qual o evento? Que horas pretendem voltar? Será que vai estar muito cheio? Será que vai ter aquele povo esquisito? Se chover não vou e bla bla bla com toda a seleção de critérios, percebo que não se trata de festas estranhas com gente esquisita; as pessoas são elas mesmas. No fundo, a questão está em torno de nós: fomos nós que mudamos.

Lembrei-me de quando éramos mais jovens. Tínhamos alguns medos e éramos inseguras. Erramos e sofremos. Mudamos de hábitos, cores e temperos. Mudamos porque nenhum dia é igual ao outro e nenhuma pessoa é igual à outra. Mudamos por necessidade ou por prazer. Saímos de casa, trocamos os sonhos, viramos a mesa, substituímos as roupas. Alteramos trajetos e senhas. Atravessamos a rua, a ponte e o talvez. Pegamos novos rumos e novas possibilidades.

Faz tempo que tenho preferido os jantares com amigos às baladas. Concluí que já não suporto mais o barulho incessante de musica eletrônica. Não tenho mais paciência para cantada barata. Gosto de gente que gosta de conversar. Também gosto de acordar cedo nos finais de semana. Acostumei-me às cervejas artesanais e aos vinhos, pois em vez de encher a cara, aprendi que bom mesmo é apreciar o momento, sem afetações ou exageros.

Ao mudar de gosto, conceito ou opinião, mudamos ao encontro de nós mesmos. Mudamos preservando a nossa essência; renovando, crescendo e evoluindo. Mesmo com pouca certeza, ora chorando e ora sorrindo, a gente muda porque não quer mais esperar. Porque é preciso recomeçar e continuar vivendo. E sabemos que novos medos, dores e erros surgirão independentemente do caminho que escolhermos.

Parafraseando Legião Urbana: mudaram as estações, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, está tudo assim, tão diferente…

Pois é Luciana, já não somos mais as mesmas, ao mesmo tempo em que, somos nós mesmas.

 

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