Hoje, a vida acordou chuvosa! O dia amanheceu escuro, perdi o horário, deixei minha personal esperando e, por fim, me arrependi de sair de casa sem o guarda-chuva. Segui andando apressada entre os moradores do prédio, pulei poças d’água e solidão que encontrei pelo caminho, e corri para a portaria para aguardar o motorista de aplicativo que me levaria ao meu destino.
Éh! Acordei estranha! Tem dias em que acordo e não encontro o otimismo que tanto prezo. A rotina de mais uma lida se inicia e entro num estado de automatismo. Simplesmente, tomo um banho, tiro o sono; passo creme no rosto, filtro solar, uma maquiagem básica e faço café. Deixo o abismo me engolir.
Poderia dizer que esse desânimo é por causa dos hormônios. Poderia justificar que dormi tarde na noite anterior. Poderia culpar alguém por isso. Poderia sentir raiva do mundo. Poderia perder a fé. Poderia tantas coisas que, agora, não posso. Tenho que sair de casa para não me atrasar.
É que às vezes a minha vida fica confusa. As emoções andam em zigue-zague da clareza da alma ao ponto mais negro da sombra do coração. Porque sou um ser de sentimentos opostos, ao mesmo tempo em que quero algo, tenho medo. Digo ‘não’ querendo dizer ‘sim’. E quando não quero tal coisa, às vezes, sou conduzida a fazer.
Enquanto sou conduzida pelo motorista, vou pensando nas coisas da vida. Por um instante, percebo que está tudo bem. Tenho emprego, casa, comida, saúde e família. Sou privilegiada nesse mundão de tanta gente que sofre terríveis desgraças. Porém, algo me inquieta: são somente essas as coisas que realmente importam?
Sim, claro, elas importam; mas nada disso ganhará dimensão se eu me perder de mim. Por um momento, tento esquecer tudo. Simplesmente penso na existência das coisas, mas sem tentar entendê-las. Cada coisa é o que é (inclusive as que não posso mudar). Não preciso de fatores externos (como o julgamento e a aparência). Tento esvaziar minha mente e sentir o presente, deixando de lado minha angustia. Fecho os olhos da visão e abro o olhar que vem de dentro. É aqui que estão minhas verdades: a realidade do que importa.
Olhar para dentro da gente não é fácil. Por isso, muitas vezes caímos na rotina — é a melhor forma de camuflar os sentimentos. É assim que as pessoas também se acovardam.
Nunca sabemos o que vem pela frente. Um dia, a vida é linda, repleta de intensidade e confiança: alguém se apaixona, o trabalho é empolgante, o sonho se realiza. Porém, de repente, esta vida se torna tempestade incompreendida: o dia é cinza, o relacionamento se distancia, perde-se o emprego, o sonho vira desilusão.
Tem dias em que a gente acorda e não encontra otimismo. Aquele que deveria estar ao nosso lado não está. Roubaram-nos a esperança. Derrubaram as nossas certezas. Já disse Guimarães Rosa que a vida é assim mesmo, ela “esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.
Já falei!!!!! Tem que escrever um livro!!! Sumida!!!! Belo texto!!! Abraços