Uma estreia no Divã

A primeira conversa com uma terapeuta nunca é apenas uma conversa. É um passo descalço sobre tapetes antigos, onde cada fio é uma lembrança que dormia em silêncio, esperando ser pisado. Entrei na sessão online sem grandes expectativas, imaginando que talvez falaria de trabalho, do meu luto recente ou de alguma inquietação do agora. Mas foi o passado que abriu a porta e se sentou à minha frente.

A terapeuta Ednna Gomes, com voz tranquila, perguntou sobre as minhas primeiras memórias. Veio à tona o cheiro doce da sala de infância naquela Rua Santo Agostinho, a luz filtrada pelas cortinas e a sensação de esperar, pequena e ansiosa, pelo momento de pedir um presente. Era um disco do Gugu Liberato, aquele que tinha a música “Meu Pintinho Amarelinho”. Meu pai, sempre econômico, descartou a ideia sem hesitar. Mas minha mãe, teimosa e delicada, juntou moedas e sonhos até realizar meu desejo. Ali, naquela pequena conquista, a promessa de proteção e cumplicidade entre nós duas já se desenhava.

A terapeuta então quis saber sobre minha posição na família. “Sou a filha mais velha”, respondi, sem titubear, certa da minha narrativa. Mas, à medida que a fala fluía, a verdade adormecida acordou: sou a terceira. Antes de mim, os gêmeos que minha mãe carregou não chegaram ao mundo com vida. Sempre me vi como a primeira, mas talvez carregasse, em silêncio, a energia dos que vieram antes e não ficaram. Sempre chamei minha irmã de “minha gêmea”, será que intuitivamente buscava preencher aquele espaço invisível deixado pelos gêmeos?

Passei pela infância como quem folheia um álbum antigo, com fotografias amareladas pelo tempo. Depois, um salto até a adolescência, onde meu pai, com seus medos e regras, tentava abafar qualquer sopro de liberdade. Proibia saídas, vigiava horários. Minha mãe, cúmplice silenciosa, me permitia pular a janela do quarto nas noites em que a vida chamava mais alto. E deixava a porta da cozinha aberta, esperando meu retorno de madrugada, pedindo apenas que eu não a decepcionasse. Era o nosso acordo, silencioso e firme como os elos invisíveis que unem mães e filhas.

O tempo acelerou e me levou à formatura do ensino médio — ou melhor, à ausência dela. Meu pai, com o discurso de más companhias, me exilou em São Bernardo, na casa da minha madrinha Joana e, depois consequentemente na casa da minha prima Belzimar, por três ou quatro meses. A vida seguiu, e na faculdade, mais uma vez, segui sozinha: o curso não era o que ele planejava, e a responsabilidade financeira era só minha.

Cada passagem da conversa era um salto no tempo, uma linha entrelaçada com outras, formando a tapeçaria complexa da minha história. O casamento da minha irmã foi outro marco — e coincidiu com a decisão de morar sozinha. O quarto que já não faria sentido sem ela era a senha para buscar novos espaços, novas versões de mim.

E o esporte? Falei do meu hiperfoco, quase obsessivo, que aflora nos momentos de angústia. Corro meias maratonas, insisto em longas distâncias, mesmo quando a dor chega — a cirurgia no pé esquerdo é lembrança constante de que os limites também moram em mim. Sempre o lado esquerdo: o pé que dói, a disidrose, a perna mais fraca nas subidas, o Neuroma de Morton. O que será que esse lado quer me dizer? O que ele representa, na linguagem silenciosa do corpo, que tantas vezes entende antes da mente?

Saí da sessão com perguntas novas e antigas. Descobri que não era a filha mais velha, mas talvez a herdeira de silêncios, ausências e promessas. Entendi que há pactos maternos que nos salvam, mesmo quando o mundo parece nos interditar. E percebi que meu lado esquerdo guarda dores e segredos que talvez só o tempo — ou mais algumas conversas de divã — possam me ensinar a decifrar.

No fim, a primeira conversa num processo de terapia é sempre um reencontro consigo mesma. Uma travessia delicada entre memórias e descobertas, onde cada lembrança é uma peça a mais no complexo quebra-cabeça de quem eu sou.

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