Reflexões de Aniversário: Entre Festas e Silêncios

Hoje completo mais uma volta ao sol e confesso: sempre fui daquelas pessoas que adoram festa. Não resisto a um convite para celebrar, a um bom vinho rodeado de risadas, a uma pista de dança improvisada na sala de casa. Mas quando o calendário marca o meu próprio aniversário, uma estranha vontade de virar tatu me toma por inteiro. Sim, tatu: aquele bicho arredio, que cava seu buraco e some do mundo, bem longe dos holofotes. Pelo menos por um dia, queria mesmo era sumir – não por tristeza, mas por um pudor alegre, por uma introspecção que só quem já coleciona algumas décadas entende.

Nunca fui fã de velinhas com número. Não me peçam para dizer quantas primaveras celebro – guardo esses números como quem esconde um tesouro: só eu sei o valor, e não preciso mostrar a ninguém. Para mim, velinha boa é aquela sem idade, que brilha pelo calor da presença, não pelo peso dos anos. Quando alguém insiste na pergunta, me escapo feito tatu: desconverso, faço piada, falo do tempo lá fora, do vinho que está na taça, do próximo destino de viagem.

Se pareço contraditória, é porque a vida é cheia dessas doçuras ácidas. Amo festa, mas às vezes me dou de presente o silêncio. Amo correr atrás de desafios, mas gosto também da pausa, do respiro, do olhar para dentro. Não foi à toa que estudei tanto – duas faculdades, três especializações, diploma de jornalista na parede dividindo espaço com Recursos Humanos. A rotina do escritório se mistura ao brilho de empreender: os óculos esportivos da minha marca são só mais uma janela para enxergar o mundo com outros olhos.

E que mundo bonito me coube viver! Tenho uma família saudável, feliz, que se reúne sem precisar de desculpa. Meu pai, por exemplo, acaba de completar 80 anos – e é dele que herdei o trauma de expor a idade, o gosto por recomeços, por celebrar vitórias silenciosas e por seguir em frente mesmo quando o futuro assusta.

Não tive filhos, e essa ausência me cabe perfeitamente: não há buraco, não há vazio. Gosto de viajar sem roteiro, de me perder em corrida, de brindar sozinha ou acompanhada, de desafiar meus limites. Não casei, não por falta de oportunidade, mas porque nunca senti a cobrança interna que tantos carregam. O amor, para mim, está em todos os lugares – nos amigos que escolhi, na família que celebro, no trabalho bem feito, nas conquistas do dia a dia.

Ainda assim, confesso: tenho medo do futuro. Talvez porque a cada aniversário, a vida pareça correr mais depressa. Mas não deixo que o medo me paralise. Aprendi, com os anos, que coragem não é ausência de temor, mas a capacidade de celebrar mesmo quando o coração hesita, de sair do buraco do tatu quando a festa chama, de acender velinhas invisíveis e soprar desejos silenciosos ao vento.

Hoje, talvez eu não queira festa. Mas sou grata – imensamente grata – por tudo que vivi. Por cada diploma, por cada viagem, por cada taça de vinho compartilhada, por cada corrida concluída, por cada amigo que faz questão da minha presença ou da minha amizade, por cada não que virou sim, por cada sim que virou história. Amanhã, talvez eu acorde tatu. Ou talvez acorde querendo festa. A vida, afinal, nunca foi sobre contar primaveras, e sim sobre colecionar instantes que valem cada minuto.

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