
Mês passado eu perdi uma amiga.
Quando recebi a notícia da morte dela, fiquei sem chão. É difícil explicar o que eu senti na hora, mas eu me lembro de sentir uma dor diferente de tudo que já senti.
Uma dor enorme e dilacerante, como se ela tivesse entrado de penetra, um parasita; sem que eu tenha me dado conta de sua presença. Segundos depois de a sentir, vem um choro frenético, compulsivo, dolorido e pesado. Senti calafrios incontroláveis, quase como uma convulsão. Qualquer consciência, juízo, pensamentos racionais, noção de tempo e realidade se dissolveram no ar.
Lembro da sensação de não poder ao menos sentir a dor próximo das pessoas que sentiam o mesmo que eu, já que eu estava longe em uma das viagens que eu havia me planejado a fazer.
Fiquei ao menos três ou quatro horas sentada no chão do banheiro porque não consegui conter minhas emoções. Nesse meio termo, minha irmã Kelly me ligou e choramos como crianças (uma de cada lado da linha) e nada mais precisava ser dito. Só existia ali o choro compartilhado da nossa dor.
Talvez eu quisesse viver meu luto da forma que eu conheço, ou seja, próximo das pessoas que a conheciam, na cidade que nos conhecemos, participando do seu velório e me permitindo a chorar qualquer momento que eu sentisse vontade. No entanto, no lugar do luto efetivo, veio o dia seguinte com compromissos intransferíveis, mensagens de whatsapp que exigiam resposta imediata, passagens aéreas que não consegui antecipar, amigos que aguardavam minha presença para um passeio traçado para essa viagem, sem falar na manhã ensolarada exigindo uma selfie. Dar espaço para dor era improdutivo. Mas como ir em frente se meu coração estava dilacerado?
A Claudia era a amiga que tinha uma pasta exclusiva de fotos no meu celular, a pessoa que literalmente expressava seu amor por mim e a pessoa que eu me sentia leve…
Eu a conheci quando estava ingressando na faculdade. No meu primeiro ano, mas não foi num ambiente estudantil que a vi pela primeira vez, mas foi num bar conhecido na época como Tangaroa. Caímos de paraquedas nesse encontro, já que éramos apenas acompanhantes (ela do marido e eu do namorado).
Nesse dia, por alinhamento de astros, por logística, pelo acaso ou por estar escrito, sento-me ao seu lado numa mesa com mais de quinze pessoas.
Nós duas, sem conhecer absolutamente ninguém exceto nossos “respectivos” não tivemos alternativa senão desenvolver algum assunto. Ela, uma menina de cabelos cacheados que parecia não ter dormido muito bem naquele dia, então diz: “Posso te fazer uma pergunta? Esse seu colar de pérolas é lindo, posso saber onde você comprou?”
Pensei, em segundos: Que bom, algum assunto em comum, já que também adoro perolas! Eu com esta personalidade um pouco mais falante do que ela, respondi um sonoro “Claro! Uma amiga que trabalha comigo vende um colar mais lindo que o outro, se quiser eu te apresento a Heloisa”.
E entre alguns assuntos ela fez o inacreditável: elogiou minha roupa, meus cabelos (encaracolados como o dela), me agradeceu pela conversa e ainda me convidou para ir à casa dela na próxima oportunidade que seu marido fosse cozinhar.
Ela era dessas. Observadora, humilde, sincera e discreta. Sempre que me via e quando gostava do meu traje (o que quase sempre acontecia) elogiava meus looks, minha postura, meu jeito; dava dicas de tendências de moda, me pedia para tirar fotos, compartilhava seus vinhos… Ela enxergava uma perfeição em mim que eu mesma não consigo enxergar.
Ela, por sua vez, era elegante, afetiva, tinha a sensibilidade e a discrição mais perfeita que eu já vi. Escutava minhas confidencias com muita classe, não se atropelava para falar, não julgava e sempre antes de iniciar qualquer palavra, olhava para baixo, geralmente para o lado esquerdo, pensava bastante, respirava fundo e então falava. Gente que pensa real antes de falar. Muito chique.
Ela era chique não só nas palavras, mas na forma de se vestir, na forma de se relacionar com as pessoas, nas fotos que ela postava em suas redes sociais…
Depois daquele primeiro contato no Tangaroa nos tornamos muito amigas. Saímos inúmeras vezes para churrascos, baladas, viagens, bares, lojas de roupas… E nos encontros em grupos, toda vez que nos víamos passávamos horas e horas conversando sobre diversas coisas… Acho inclusive que as pessoas pensavam: “o que tanto essas duas tem de assunto?”
Digo com tranquilidade que a Claudia foi a amiga que mais me fazia sentir o quão especial eu sou. Ela não deixava dúvidas do seu sentimento por mim. Ela conhecia de cor as minhas neuras e sabia guardar meus segredos como ninguém. Não importava o quão perdida eu estivesse, era só ligar pra ela que ela sabia me escutar com isenção de julgamentos.
Desde o mês passado eu choro praticamente todos os dias e a qualquer hora. É um choro pesado e exaustivo onde quanto mais eu choro, mais e mais vontade de chorar eu tenho. Por um momento achei que eu mesma viraria lágrima, já que elas nunca acabam.
Até hoje, um mês e treze dias depois toda vez que eu lembro que eu já não a tenho mais aqui, eu sinto um peso enorme nas costas. Às vezes dou um longo suspiro tentando de qualquer forma buscar algum alívio para esse peso. Mas não resolve. Ele continua ali, insistente e incomodo.
Minha mãe e eu somos muito parecidas, mas uma das coisas que mais nos une na semelhança, é o fato de que nós duas não sabemos lidar com o luto de uma forma saudável. Há dias, que falo com ela sobre minha amiga e ela chora como se tivesse acabado de receber a notícia da sua morte. Sem se dar conta, ficamos presas nesse ciclo de sofrimento sem fim.
Inconscientemente tenho evitado pessoas que me levam até ela (debati isso em terapia). Poderia estar mais presente na vida do meu amigo e marido dela, na vida dos filhos e dos nossos amigos em comum, no entanto, não sei como lidar com essa dor. Não sei guardar a minha para lidar com a dor deles.
Eu de fato ainda choro, mas não (apenas) pela falta dela, mas pela minha própria falta.
A pessoa que eu me tornei depois que a conheci, de alguma forma, também se foi junto com ela.
Eu não sei dizer qual é o sentimento que vem. Não sei se é confusão, se é raiva, se é somente tristeza, ou o puro nada. Como disse minha terapeuta, a dor uma hora anestesia. Não se sente mais nada, apenas o vazio, o isolamento, a consciência perdida e sem rumo da alma diante de um labirinto enorme.
Eu sei que as vezes me sinto completamente perdida por ainda chorar tanto pela sua morte. Já se passou um mês e eu ainda sinto sua perda como se ela tivesse acontecido hoje. Eu tenho plena clareza na minha cabeça que não devemos lutar contra a morte, porque sabemos que vamos perder. Mas nesse caso, não é contra a morte que estou lutando, é contra a saudade. É ela que me desgasta, que me faz chorar de soluçar, que ainda me faz buscar o seu rosto nas multidões e pensar que estou em um pesadelo e que tudo isso uma hora vai acabar. Ela não morreu, ela saiu do coma, essa não era para ser a sua hora.
Não sei como consegui sentar-se frente ao meu notebook e como parte do processo de luto escrever sobre ela. Até isso era difícil. Foi difícil colocar nosso último vídeo juntas, onde ela pediu para que eu elaborasse uma montagem para ela colocar em seu Instagram como #tbt. Ela partiu antes de postar, e hoje, faço isso por ela também.
Mario Quintana dizia que a felicidade bestializa, só o sofrimento humaniza as pessoas. E é verdade. Enquanto escrevo isso, me compadeço de mim, mas não no sentido de ter dó, mas de perceber que sou humana. Todo o ego, vaidade e outras superficialidades desaparecem porque nada disso importa diante de uma perda dessa proporção que me causa tanta dor e para sempre vai causar.
Segundo algumas linhas religiosas, a morte não é o fim. Chico Xavier disse que a alma é eterna e aquelas que são afins de verdade, sempre se procuram e quando finalmente se reencontram, são como velhos amigos depois que voltam de uma longa viagem. Nunca perdemos alguém de verdade, já que o ser querido sempre estará conosco, mesmo que a perda seja inevitável. Todos estes conceitos são acalentadores e ajudam de diversas maneiras a lidar com a perda, a dor e a saudade.
De vez em quando me deparo com assuntos e histórias muito especificas onde, de forma inconsciente, meu primeiro pensamento é “A Claudia iria gostar disso”. Mas ela já não está mais aqui.
Eu vou sentir saudade dela para sempre, porque ela me ajudou a ser quem eu sou hoje e, por conta disso, haverá sempre uma parte dela em mim. E eu sou extremamente grata porque, eu não sou a melhor pessoa do mundo e mesmo assim a vida se encarregou de colocar alguém incrível como ela no meu caminho. Mas é aquilo, como diria Vinicius de Moraes, a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.
Perder uma amiga é perder as madrugadas de gargalhadas, as corridas nos shoppings, as taças de vinhos e prosas, os planos das viagens que traçamos, as trocas de confidencias, as danças inevitáveis em nossos encontros; é olhar para trás e saber que éramos felizes de verdade, é sentir falta do carinho que existia e que – esse assim – morreu. É perder uma vida inteira, mas não uma vida que já se foi, mas uma vida que ainda deveria ser vivida.
Clau, desde que você partiu meu mundo ficou menor, mais pobre, mais frágil, mas enquanto eu respirar continuarei lembrando da amizade que tinhamos e honrando nossos momentos.
Obrigada pelo encontro.
Até um dia desses!