Katia escritora x Kátia personagem

Parte 1

Terça-feira, 30 de Janeiro de 2023. Kátia estranhou a si mesma. Começou o dia sentindo culpa e após o a sessão de terapia sentia uma estranha alegria — no sentido bom, hiperbólico. E olha que o dia estava terrivelmente propício para um alto nível de estresse: o calor insuportável, reunião sobre avaliações de desempenho, diretores insatisfeitos com o impacto do dissidio salarial na folha de pagamento. Em certa medida da reunião, Kátia pensava e agia como se tivesse 65 anos. Plena, serena e convicta de que seus argumentos seriam respeitados.

Katia, mora sozinha, trabalha com a mente ligada no 220. Coisas da modernidade, do mundo globalizado, do imediatismo, dos pensamentos acelerados que não raramente atropelam o sono. Quase sempre amanhece mais cedo que as demais pessoas comuns: 5h da manhã. Sofre de paralisia do sono. Tem uma diferenciada visão de futuro.  

Na pandemia, viu-se forçada a gerenciar uma empresa de casa. Alternava home office com trabalho presencial. Hoje, Via Dutra é sua confidente de pensamentos. Come comida congelada por falta de tempo e por praticidade, mas escreve sobre gastronomia. Corre três vezes por semana. Anota na agenda metas de leitura do mês (o que nem sempre cumpre). Duas chaves tetras na porta do apartamento. Força a porta para certificar, pela terceira vez consecutiva, que está mesmo trancada.

Antes de sair, contudo, olha o fogão para confirmar que não esqueceu alguma chama acesa, apesar de pouco cozinhar. Tem medo de tocar fogo no prédio. De um avião bater no seu apartamento depois que o prédio virou rota de voo do aeroporto de SJC. De ficar muito doente e não ter uma rede de apoio. De ficar grávida solteira. De ter um aneurisma. De sofrer um assalto. Do seu cachorro morrer. De ser presa por engano. De perder seus pais. De ter depressão. Muitas neuras para 1.60 de altura.

Aos finais de semana, apesar do estranho sentimento de culpa pelo relax obrigatório, gosta de sair um pouquinho para ver o mar, de aproveitar os amigos ou alguém que vale sua disponibilidade de tempo, de frequentar locais animados com música ao vivo, mas, muitas vezes fica em casa sozinha, lê algum livro na piscina do prédio, vê algumas séries da Netflix, degusta uma taça de vinho com um vídeo instrumental tocando no youtube ou escreve no seu blog.

Kátia tem uma inquietude típica. Já fez aulas de Karatê, dança flamenca, balé, sapateado e samba de gafieira, assim como estudou a bíblia com testemunha de Jeová, frequentou igreja evangélica, messiânica e por fim, foi professora de catequese na igreja católica.

No esporte pratica corrida, faz crossfit, musculação, beach tenis e se tivesse um pouco mais de 24 horas no seu dia, seria capaz de inserir outras atividades que a despertasse interesse.

Viajar para a maioria das pessoas é um hobbie, para Kátia, um hobbie levado a sério. Destinos nacionais e internacionais são colocados em mesmo patamar, porque o que realmente vale é a expansão da consciência e experiencia e isso independe de lugar.  África, Argentina, Colômbia, Dinamarca, Estados Unidos, Caribe, Suécia, Uruguai, em mesmo pé de igualdade com o Nordeste Brasileiro e com o Sul do pais.

Tem o incomum hábito de visitar museus e igrejas caindo aos pedaços em toda cidade histórica que passa. O passado a fascina.

Gosta de escutar histórias dos seus antepassados quando visita a terra do seu avô. Já tentou, com a ajuda de um primo, fazer uma longa arvore genealógica da sua família. Descobriu algumas Leticia’s e Isabela’s nessa árvore. Prometeu a sua avó de colocar seu nome na sua primeira filha. A filha não veio, mas a intenção foi genuína.

Fundamentalmente, em algumas fases da vida ela parece atolada no passado até o pescoço. E algumas vezes, um passado curto demais para merecer tamanha relevância. Ainda assim, nunca é sobre tempo, já que curto e longo não faz muita diferença no seu sentir.

Controversa. Formada em Jornalismo e em gestão de pessoas, ela prefere os ensinamentos de Einstein: tudo é relativo.

Terminou 2023 farta de quase tudo. Das selfies. Dos likes. Das desilusões da vida. De Lula e Bolsonaro. Da epidemia de cretinos que infestavam as redes digitais e que se rotulavam influenciadores. Quem mais a influenciava já tinha morrido. Sua avó. E certos ícones do passado, a cada dia mais presentes nos seus momentos de mania, de hipocondria, de gêneros musicais e de solitude.

Apesar de gozar de saúde de ferro, condição típica do estilo de vida que leva, tem a impressão de que pode sofrer um colapso a qualquer momento ou ser portadora de alguma doença rara que ceifará a sua curta existência.

Pratica vários esportes não só porque gosta, mas como uma forma de preencher alguma falta que ela ainda não identificou do quê. Já esteve acima do peso. Hoje está abaixo. Tenta o equilíbrio. Acredita que o estomago é muito mais emocional do que o coração e que romantizaram o órgão errado. Hoje, tenta ganhar peso e não acreditaria nessa falácia há 5 anos.

Aproveitou o inusitado contentamento vespertino para tomar decisões. Deu um passo e reuniu sapiência o bastante para dar um fim no rancor, para superar as óbvias diferenças de visão, para quebrantar as cápsulas de frieza, para fechar ciclos, para dar um sopro sincero de sentimentos com o intuito de tocar a vida em frente.

De forma involuntária e inconsciente, não tomou nenhuma decisão. Não fechou nenhum ciclo. Estagnou-se. Nem tudo se explica. Nem toda explicação convence. Calor pra dedéu. O dia estava confuso. E isso, por si só, já não seria dias para grandes decisões.

Hoje, quarta-feira, 31 de janeiro. Uma chuva fina cai em sua janela a deixando em dúvidas sobre sua aula mais tarde. Pensa no tempo, na vida, em alguns projetos engavetados prestes a criar formas. Sente uma conturbada paz.

No mais, assim como você, ela é perfeitamente imperfeita e dia após dia continua em construção…

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