“Eu preciso silenciar a mente”. Tem muito barulho dentro de mim… Talvez eu precise ficar na posição clássica da meditação. Vamos lá. Recordo-me de uma aula de ioga que eu fiz na Praça do Maconhão onde bastava deitar no colchonete e se concentrar na respiração.
E assim converso comigo mesma: “Kátia Leal não briga com os pensamentos, mas também não dialoga com eles. Deixa eles irem embora e volta para a respiração.” Mas eles não vão embora!
E depois de algumas tentativas para meditar observo que a minha praia mesmo é a corrida. Nesse esporte eu confio e apenas me concentro.
“Pego meu fone e saio para correr com a mente focada apenas na minha respiração. Às vezes faço o percurso da Via Oeste, às vezes do Urbanova, às vezes o professor Renan ou a professora Ângela traçam o percurso, mas independente do caminho ao final dele eu chego mais leve.”
E assim, começa minhas terças, quintas e sábados. Me encontro, me alongo e finalizo com uma foto com o grupo de corrida Cia Atlética & Pé na Rua, que diga-se de passagem, faz toda a diferença. Troco algumas palavras com um corredor ou outro, escuto a orientação do treino como distância, percurso e pace. Ligo o relógio. Caminho esperando os três segundos do “start”. Três, Dois, Um. Ar que entra, ar que sai. Vou correr na velocidade máxima. Repenso. Vou devagar e seguindo a faixa de segurança para ver se os motoristas estão cumprindo a lei. Não. Mudei. Sou uma nova mulher. Nada de ser afobada. Ar que entra, ar que sai. Sou uma Buda esperando o farol fechar enquanto todo mundo se atira e chega do outro lado bem antes de mim. Aliás, pra que tanta pressa? Sou superior agora. Vivo o presente. Ar que entra, ar que sai.
Quando estou contornando o Shopping Colinas já me sinto a um passo do Nirvana. Um passo harmonioso atrás de outro passo harmonioso. O ritmo segue as músicas da minha playlist. Janis Joplin, The Cramberries, dividem espaço com samba e sertanejo. Ar que entra, ar que sai. Deixei para trás as pequenezas do mundo. Sou um ser conectado ao universo. O ar entra pelas minhas narinas percorre meus pensamentos vagos. O monstro do lago Ness que dorme no meu oceano interior agora é um peixinho de aquário.
Nada mais me afeta. Ar que entra, ar que sai. Canto alto. Esqueço que as algumas pessoas não usam fone. Sorrio. Meu sorriso é aquele de quem desacelera e espera o farol fechar no cruzamento da via oeste. Paz. Sim, o deus que mora em mim saúda o deus que mora em você.
Música ruim aparece na playlist, troco. Assim como a música “Não deu carinho, troca, não arrepia, troca”…
Acelera, desacelera. Ar que entra, ar que sai. Hum, o que está acontecendo? Não, não é nada de dentro. É de fora mesmo. Avisto o ponto final. E vejo que deu o horário de interromper a corrida e o encontro com aqueles amigos que em alguns momentos me esperam em outros me ultrapassam.
Alguns exigem mais folego do que eu posso dar no momento (os que compõem a tropa de Elite), outros me fazem ver que a corrida pode ter o pace que seu estado de humor permitir (pace paquera, pace do agito, pace fofoca, pace turismo, pace da selfie etc) e há aqueles que só de participar já te fazem um bem danado (pace amigo).
Lembro-me agora do meu parceiro de corrida, amigo e quase BFF do sexo masculino Wagner, que diz que não toma decisões antes de correr… Pergunto-me: “Suas decisões de hoje Kátia Leal, em que pé estão?” E respondo-me quase como a aprendiza atenta que sou: “Decisões pendentes quase tomadas e já avistando o final do percurso”.
Percorro o que me falta numa velocidade quase feliz. E só quando chego ao portão do Shopping Colinas, portão do Parque Ribeirão Vermelho ou ao portão do Parque Vicentina Aranha percebo que minha mente esvaziou.
Não é que funciona?
