O que há de certo comigo?

Não foi uma e não foram duas as vezes em que eu pensei: O que tem de errado comigo? Foram tantas as vezes que eu sequer consigo enumerar. Aliás, é ai que mora a maior ironia de todas: pensar dessa forma.

Antes de mais nada, deixa eu compartilhar uma coisa. Eu sou a pessoa que está pronta pra te dar um conselho. Assim, vapt vupt. Sou comunicóloga, mas sou também uma boa ouvinte. Em alguns momentos sinto que me daria muito bem na área da psicologia. Frases como: “amiga preciso desabafar é muito comum no meu círculo de amizade”. Outras expressões como: “tem 10 minutinhos pra mim” é corriqueiro na maioria das vezes que estou no trabalho presencial.

Escuto, analiso a situação as vezes falo frases de efeito, outras aconselho, mesmo sabendo exatamente que o que importa não são as palavras, mas a isenção de julgamento e o acolhimento que muitas vezes eu consigo demonstrar.

Mas outra curiosidade que vou compartilhar é que tenho muita dificuldade de falar de mim para alguém. Sempre desconverso, me limito ao básico. Alguns me acham reservada, outros uma incógnita, mas a verdade é que minha vida não é tão interessante que eu tenha vontade de “desabafar”. E não gosto também. Meus conflitos internos busco resolver, jogo pra baixo do tapete (quem nunca!?) ou debato em terapia.

Sendo assim, sobre vida pessoal, relacionamentos, sentimentos, sou uma estrela como receptora e uma arvore como emissora. Quem me conhece de verdade, sabe que o que conhece é o “quase nada”. Hehehehe.

Sessões de terapia me salvam semanalmente como um pequeno respiro pra fora da minha cabeça. Ajuda! Lá consigo me expressar, talvez pelo fato de pagar pela hora. Falo, ela me escuta, saio, faço pix e vida que segue. Simples e prático!

Tenho me questionado bastante sobre o que está certo e o que está errado na minha vida, ou melhor dizendo, o que há de errado comigo em algumas situações que não consigo resolver.

O primeiro passo foi descobrir que estava na hora de mudar algumas estruturas, posturas, rotinas.  

A primeira delas foi parar de me cobrar demais. Chega da sociedade do desempenho!

Sabe aquela sociedade da produtividade? Aquela que prega que, quanto mais você se doa, quanto mais você “trabalha enquanto eles dormem”, mais rápido você chegará “lá”. Óbvio, que antes de todo mundo.

A gente fica tão maravilhado com a ideia de alcançar mais depressa a felicidade plena e a estabilidade que vai logo assinando os termos de acordo sem ler tudo o que está imposto nele. Mas a verdade é que nesse contrato, e em letras minúsculas, está escrito que isso te custará sua saúde mental, física, emocional… a sua vida. E em letras ainda mais pequenas está declarado que nada disso existe. O seu valor quanto ser humano não está ligado a uma ideia imaginária de sucesso.

E afinal, o que é mesmo sucesso pra você? Relativo não acha?

Há pouco mais de três anos, meus horários de trabalho eram os mais loucos da vida. Já cheguei a entrar 7h e sair 1h da empresa, já trabalhei aos finais de semana, já passei madrugadas em claro, já computei mais horas em banco do que eu tinha de férias, já comi fast food sequenciais que só de pensar meu metabolismo sofre. No início da pandemia e com o trabalho home estava quase voltando para esse ciclo vicioso, já que computador em casa era um convite a adiantar o que não era adiantável. (Vamos ser sinceros, nós nunca adiantamos, pois no outro dia surge outra coisa que queremos também adiantar)

Parei e resolvi me priorizar. Elaborei uma rotina de atividades fisica, acompanhamento com nutricionista, retorno a terapia. Viajei para os locais que eu queria fracionando meus dias de férias e comecei a olhar não o que há de errado comigo e sim o que há de certo.

Esse ano estou trabalhando com afinco, excelência, responsabilidade, clareza e tudo o que compete a mim, é entregue. No prazo e da melhor maneira possível. Mas por muito tempo achei que precisava me entregar mais, fazer mais, ou melhor, além. No fim das contas, até o “além” não era suficiente. Nunca. E isso não era para buscar algo maior, mas para ser melhor. E, quando desejamos ser melhores, sem um valor maior, não há o que sustente nosso fôlego.

A corrida é vazia. A corrida não tem alma. A corrida é atropelada. A corrida não era minha.

Entendi que essa era uma reviravolta que eu precisava passar. Não iria vender minha saúde, não iria vender minha alma. Pelo contrário, queria me apropriar e me respeitar cada vez mais. Mas ainda assim queria executar um excelente trabalho. Dentro do possível. Esquece esse negócio de fazer o impossível, pois de possível em possível chegarei longe. E de impossível e impossível? Chegarei também?

Sobre esse equilíbrio os números na empresa não mentem. Maior faturamento, menor número de processos trabalhistas, uma equipe mais alinhada. Na vida pessoal, sou uma versão melhor, menos perfeita para os outros, mas com melhor qualidade de vida.  

E assim, em vez de buscar o que há de errado comigo e me auto julgar vou começar a buscar o que há de certo comigo.

Já fizeram esse exercício? É libertador!

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