A pele pálida revela uma angústia que retumba meu peito frágil.
Noite passada, na sacada do apartamento, o vento gélido me cortou a alma despedaçada. O som da TV ligada. Risadas e música desconexa no aparelho.
Virei-me. Atônita, me imaginei comigo mesma, sentada no sofá. A diferença é que a Kátia do sofá tinha uma expressão alegre de uma moça com a jovialidade lhe brotando à pele.
Eu mesma, mas outra de mim. Um eu diferente, com outra vida, como se eu tivesse tomado decisões menos desacertadas. Como se tivesse planejado a vida com vicissitudes mais brandas do que minhas escolhas funestas.
Aproximei-me da minha projeção, da realidade paralela e observei.
A outra Kátia, sentada tranquilamente no sofá, pés esticados. Um olhar despreocupado. Um ocupado senso de prazer.
Mas a outra Kátia não me via. Ignorava-me. Era apenas ela e a TV. E um sorriso insistente, sincero, que não ousava desaparecer.
– Pode me ouvir? – Quase um sussurro…
Sem respostas.
Contemplou ao redor. A casa toda redecorada. Luzes acesas. O olhar jovial. A expressão sorridente. Tudo novo e ela, uma espectadora cansada de cansaços. A Kátia inacabada, mas feliz!
Sentei-me na poltrona e fiquei admirando-me. Admirando, a jovem cuidadosamente esparramada em um sofá, exibindo uma satisfação com que eu sonhara toda a vida. Queria aprender, saber o que ela fez para conquistar aquele sorriso despreocupado e de uma leveza que me causava inveja.
Estou cansada de estar cansada. E preciso voltar a aprender a sorrir. Um sorriso de verdade, não aquele dado socialmente.
Deitei-me no chão frio, e esperei.
Enquanto isso, na sacada, o vento gélido sussurrava em meus ouvidos as muitas dúvidas e as poucas certezas.
A vida é assim: prega peças e parece ter um senso de humor que não condiz com a minha versão atual.