Divagações

Praia BoneteHoje acordei irritada… Insônia faz isso comigo!

Tomo um banho, olho o espelho e me canso do meu cabelo, da roupa que visto, da bolsa que anda pendurada no meu ombro todos os dias.

Enjoo dos meus caminhos, do sabor do café da manhã, da louça que tenho que lavar, do lixo que tenho que colocar pra fora e do trânsito chato em São José nesses últimos dias.

Nesse momento, tiro o ânimo das profundezas do espelho, faço minha maquiagem, coloco um sorriso no rosto e… Dá-lhe autoestima. E dá-lhe fingir que o dia hoje está i-n-c-r-í-v-e-l.

Ligo pra minha mãe ao me sentar na minha mesa de trabalho e reclamo da baderna da minha cozinha, da ausência da diarista essa semana e de como a sopa que ela preparou ontem me livrou de algumas horas na cozinha.

Muitas vezes, tenho preguiça de morar sozinha… me virar sozinha… me reinventar sozinha…

Até sei pregar um botão, ainda que torto, mas não sei nem por onde começar a cozinhar um feijão. Só vou ao supermercado para comprar vinho e petiscos e no dia que tive que aprender a diferença entre alvejante e água sanitária, dei um Google.

Mesmo assim tenho uma vida ótima. Me viro muito bem sozinha (graças as sopinhas congeladas da minha mãe, dos temperos batidos no liquidificador que ela prepara e das roupinhas que ela sempre deixa lavadas e passadas). Eh! Nem tão sozinha assim! Eu sei!

Gosto de receber minhas amigas em casa, prosear até tarde, tomar uma cervejinha gelada no calor, algo mais encorpado nas noites mais longas e um vinho nas noites mais frias… Gosto de cozinhar para minha família (pratos não triviais, claro)

Gosto de ligar o youtube da Smart TV e dançar loucamente na sala com as coreografias que eu seleciono. E olha que vai de Anitta para Beyoncé num passe de mágica.

Gosto também de deitar na minha cama, ligar o Netflix e simplesmente não fazer mais nada!

Acho que sou de uma geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivada a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir um pouco minha independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilhar como as provas com notas 10 que eu tirava no colégio. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando ganhei um prêmio na faculdade.

Quando resolvi fazer um curso de inglês meus pais acharam bacana e até me ajudaram na época. Mas quando terminei minha segunda faculdade e minha pós graduação inflaram o peito como pombos.

Conheço muitas amigas que pertencem também a essa geração, mas escuta, alguém  lembrou de avisar os meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar? Que nós iríamos gostar de cerveja, vodka, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão?

Talvez a culpa não seja exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família.

No fim das contas eu não sou nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem quero ser!

Eu já me abri pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra me ganhar de volta.

 

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