Uffa, depois de um tempo off, enfim um desabafo… Estava em casa, semana passada, sem nada pra fazer, lendo alguns e-mails antigos do grupo da faculdade, quando um deles solicitava a inclusão na comunidade do RH no Orkut… Isso me fez refletir!
Até hoje, não criei um Orkut pra mim… Parte por falta de tempo, outra, falta de entusiasmo, mas confesso que o que mais pesa é o desejo exagerado que muita gente tem nutrido acerca da transparência.
Escuto várias pessoas afirmando categoricamente que preferem saber de tudo o que seus parceiros fazem, ainda que isso sirva, sobretudo para dilacerar sua alma, destruir seu coração e pisotear sobre seus valores.
Estou falando do Orkut sim! Um ‘site-vitrine’ exposto, por algumas pessoas, de modo leviano, e transformado num mundo de fantasias absurdas. E se não bastasse a construção diária de tamanha ilusão, milhares de pessoas se deixam influenciar por ela para fazer escolhas importantíssimas em sua vida!
É um novo e desastroso jeito de praticar o antigo voyeurismo – isto é, bisbilhotar o outro em sua intimidade. Acontece que, originalmente, a idéia é olhar para (e sentir prazer pelo) o que existe de real, enquanto que pelo Orkut, o que se vê não é – definitivamente – real e, muito menos, tem proporcionado prazer.
Vejo minha irmã horas e horas navegando pelas novidades dos amigos, e confesso que várias vezes, já entrei pelo login dela, por pura curiosidade… Orkut é algo que vicia… E vicios, já tenho os meus… Fantasias já tenho as minhas…
Claro que existem vantagens de se usar o Orkut, mas é preciso maturidade para usufruir delas!
Enfim, vivemos a era da transparência, mas nem sabemos o que isso significa e para quê serve. Queremos saber da vida do outro sob a justificativa de que somos sinceros e desejamos reciprocidade, de que preferimos agüentar a dor da verdade a imaginar a hipótese de estarmos sendo feito de bobos.
O que é isso?!? Desde quando estamos prontos para uma verdade que, no final das contas, nem existe? Desde quando o humano é passível de tanta transparência?!? Não sabemos nem de nós mesmos, o que dirá do outro!!! Mudamos de idéia, pensamento e até de opinião o tempo todo e queremos que o outro nos passe relatório de seu mundo interior!!! Como assim?
E depois não entendemos por que estamos tão neuróticos, tão depressivos, tão ansiosos, tão estressados… Desejamos uma verdade sem nos darmos conta de que, para conhecê-la, precisamos antes investir em nosso amadurecimento, em nosso equilíbrio, na consciência de quem somos e o que temos para transparecer ao outro.
Mas, não! Simplesmente almejamos a utópica sensação de poder, de controle, de manipulação acerca do futuro e da vida alheia… e o que conseguimos? Frustração, decepção, brigas, cobranças, desentendimentos, rompimentos, lágrimas, ofensas, desrespeito e humilhações.
Não estou defendendo nenhuma das partes: nem a que constrói uma fantasia sob o rótulo de verdade e nem a que se corrói por descobri-la, como se acabasse de encontrar um mapa do ‘tesouro’. Tudo o que temos encontrado, nestas buscas insanas e infantis, está mais para bomba-atômica do que para algo que se pareça com alguma verdade ou tesouro.
Lá no meu interior, sugiro que, antes de saber, querer saber ou perguntar a quem sabe sobre o quanto o outro tem sido sincero, transparente e verdadeiro conosco, consigamos responder a nós mesmos quais são as nossas verdades, o que temos feito para ser verdadeiramente transparentes. Com que intensidade e por quanto tempo podemos manter um determinado sentimento, uma opinião ou uma circunstância…
E que todos nós, em alguma medida, seguindo o ritmo de nossa maturidade, percebamos que mais importante do que saber tudo sobre o outro é nos mantermos focados em nossas intenções, no desejo real de viver o que há para ser vivido… e a verdade do outro será apenas e tão somente uma natural conseqüência…
Que paremos, de uma vez por todas, de nos deixar influenciar por fantasias ou – pior – de investir tanto tempo construindo fantasias por conta própria, seja sobre nosso próprio mundo, seja sobre o mundo do outro.
Porque a transparência de fato não está no que ele diz ou faz, nunca! Está dentro de cada um; em cada uma das escolhas que fazemos a cada instante, e que tantas vezes nem percebemos…
Estarmos um pouco mais atentos às escolhas que temos feito e, assim, sabermos um pouco mais sobre nós mesmos, é o que realmente importa!