O Melhor Presente Não Veio Embrulhado

Ontem foi meu aniversário.
Não vou dizer a idade porque descobri que, depois dos trinta, esse número passa a ser apenas uma sugestão. Uma referência. Um conceito aberto à interpretação. Igual prazo de entrega de obra. Hehehe

A verdade é que envelhecer é um exercício diário de negação. A gente compra creme antirrugas e chama de prevenção. Investe num tênis com amortecimento porque, claro, “é para proteger o joelho”. Jura que aniversário é só mais uma data no calendário, mas passa o dia conferindo o celular, esperando ser lembrada.

Eu vivo repetindo que não gosto de comemorar meu aniversário. Tem gente que ri e diz que isso não combina comigo. Talvez tenham razão. Não chega a ser mentira. É mais uma meia verdade. O problema nunca foi a festa. Sempre foi a estranha sensação de ser o motivo dela.

Eu adoro festa. Amo organizar aniversário dos outros. Sou capaz de montar playlist, decorar mesa, convencer gente tímida a dançar e ainda liderar o coro do “com quem será?”. Mas quando chega a minha vez, alguma engrenagem estranha gira dentro da minha cabeça e eu entro em modo testemunha protegida. Se pudesse, passaria despercebida.

Só que meus amigos têm um defeito gravíssimo: eles nunca respeitam minhas crises existenciais.
Ontem eu estava de day off. Aliás, esse foi um dos primeiros benefícios que implantei quando assumi a gestão da empresa. Sim, eu mesma criei a regra e, claro, sempre resolvo obedecê-la. Um dia inteiro livre. Sofá disponível. Streaming me chamando. Café sem horário. Uma oportunidade rara de não produzir absolutamente nada.

E o que a aniversariante resolveu fazer?
Correr.

Porque existe uma versão de mim que acredita sinceramente que celebrar a vida significa acordar cedo para sofrer voluntariamente.

O treino previsto era de apenas seis quilômetros. “Rapidinho”, pensei.

Só que eu estava com a Lívia. Amiga maravilhosa. Inspiradora. E completamente comprometidas com a planilha de treino do Runna.

Ela faria sete quilômetros.

Na teoria, um quilômetro a mais parece uma distância ridícula. Na prática, dependendo do horário e do seu pique, pode parecer a travessia do Deserto do Saara.

Meu cérebro começou aquela negociação clássica:
“Vai… é só mais um.” “Você consegue.” “Não seja fraca.” “Já que saiu de casa…”

Resultado?
Parei nos seis e meio. Não cumpri minha meta. Não cumpri a dela. Fiquei ali, num limbo esportivo muito confortável.

Mas quer saber? Era meu aniversário. Ontem eu estava oficialmente dispensada de cumprir qualquer expectativa — principalmente as minhas. Se existe um dia no ano em que a gente pode trocar a disciplina pela vontade, é esse.

E a minha vontade era das mais simples: terminar a corrida, sentar no café do Pão de Açúcar — nosso ponto de encontro, ali dentro do shopping, onde o percurso sempre acaba — pedir um café bem forte, um pão de queijo quentinho e esticar por alguns minutos aquela conversa boa do pós-treino. Aquelas conversas despretensiosas que, de vez em quando, conseguem atrasar a pressa da vida antes que cada um siga seu caminho.

Eu esperava exatamente isso. Um café qualquer, uma pausa qualquer, um começo de aniversário sem grandes acontecimentos. Mas a vida, que adora sabotar os nossos roteiros mais previsíveis, tinha preparado outro plano. Foi ali que recebi um dos presentes mais bonitos do meu dia.

A turma inteira estava lá.

Gente que nem tinha corrido. Gente que atravessou a cidade. Gente que já nem frequenta mais o grupo. Gente que simplesmente apareceu porque era meu aniversário.

Às sete e pouco da manhã.

Dentro de um supermercado. Cantando parabéns completamente desafinados.

Existe uma cena mais brasileira do que essa?

Olha… eu administro empresa, resolvo problema, negocio conflito, apago incêndio, tomo decisão difícil.

Mas confesso uma coisa. Aquilo me desmontou.

Enquanto eles batiam palmas, percebi que a vida tem uma estranha mania de esconder seus maiores presentes dentro das coisas mais simples.

A gente passa o ano inteiro perseguindo metas, tentando fechar planilhas, resolver problemas, pagar boletos e alcançar objetivos que mudam toda semana.

E, de repente, entende que sucesso também pode ser um grupo de amigos levantando cedo só para dividir um café com você.

Ao longo do dia, o Instagram também resolveu me surpreender em pequenas notificações. Confesso que me emocionei com alguns vídeos e mensagens de amigos e primas que eu jurava, de pé junto, que não se lembrariam da data. Sabe aquelas pessoas com quem a vida desencontrou um pouco os horários, mas não o afeto? Pois é. Elas apareceram. Algumas com um vídeo, outras com uma foto antiga, outras com poucas palavras — e, curiosamente, foram justamente essas que mais me desmontaram. É engraçado como a gente cria teorias mirabolantes sobre o lugar que ocupa na vida dos outros, e a vida, de vez em quando, faz questão de provar que a nossa matemática emocional costuma errar feio.  

Quando a noite caiu, fui para a casa da minha mãe. Tem tradições que não precisam ser reinventadas, apenas vividas. Minhas irmãs já estavam lá. O bolo também. E bastou atravessar a porta para eu voltar a ser, por alguns instantes, apenas a filha que continua comemorando a vida no mesmo lugar de sempre.

E, foi isso… Hoje acordei com aquela sensação boa de quem recebeu muito mais do que presentes.

Recebi tempo.

Afeto.

Presença.

Daquelas coisas que não cabem numa sacola de loja.

E continuo firme comemorando meus trinta anos.

Pela… hum… deixa pra lá.

Já perdi a conta de quantas vezes fiz trinta. hahahahaha

Aliás, perder essa conta talvez seja um dos maiores privilégios da idade.

Porque existe uma fase da vida em que a idade deixa de ser matemática.

Ela vira coleção de histórias.

E, sinceramente?

Prefiro muito mais contar essas.

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